
Numa metáfora bem singela, minha vida, nesses últimos doze meses, tornou-se uma caixinha de quinquilharias, tão bagunçada que não consegui fechá-la, não conseguir achar meus pertences e ainda deixei que todo mundo mexesse um pouquinho, roubando coisas que me são de direito. Primeiro, criei expectativas. Achei que nesse ano a guinada ia ser completa. Só que não escolhi o lado. Depois, deixei tudo pela metade. Restos espalhados pela gaveta, emperrando-a; as fotos das pessoas que estimo fui deixando no fundo, porque relembrar só me fazia sofrer. Vi minha eterna companheira de mala e cuia, pegando a estrada e me deixando só. Vi o sofá azul, impregnado de histórias e lembranças das pessoas que amei, ter um fim trágico. Vi meus amigos se casar, mudar de endereço, pegar diploma, ter seus filhos, perder o emprego, se apaixonar. E eu no mesmo lugar. Rezei pouco, blasfemei menos ainda, segurei o riso, o sono, o choro, bebi só socialmente, agi com cautela, adaptei. Me preocupei demais com os outros. Me preocupei demais comigo. Não inventei nenhuma simpatia, não xinguei muito palavrão, não chorei de amor, não fiz planos de vingança, não pedi colo, não catei ninguém pelos cabelos, não comi porcaria, não me tatuei, nem me declarei, nem tomei banho a dois. Meu gráfico esteve constante. E quando mexia na caixinha, o cheiro de mofo vinha me perturbar. Mas nada eu joguei fora. Como a vovó fazia com seu guarda-louça, cheio de páginas de revista, miudezas e a chave de São Pedro.