sábado, dezembro 23, 2006


Nas mesas todas, apostas
Aposto as cartas que empunho
Rode a melancolia seu interminável fuso!
E escolha quem irá rodar com ela

Curingas não trago entre as cartas
Ou mesmo sorte de principiante
Dou as cartas, faço trincas
Embaralhando sentimentos

Na jogatina de amantes

Da trama

Azar no jogo, sorte no amor
jogo do azar, sorte de quem não ama

versinhos para trovador

Poetinha meu
Meu poetinha.
Se choro é pelo acaso
Por desentender o destino:
Condenou-me sua
Sem fazer de você meu Dionísio.

Se dei pra cobrir a face
Contendo o choro que insiste
Não é mais de amor
É saudade, poeta
Drama dos versos tristes

Suplico apenas nesses versos
Livre-me destes disfarces
Desse poema de sete faces
Desse soneto de amor maior

terça-feira, dezembro 19, 2006

acho que começo a ficar monofásica, monosilábica, monoteísta, monogâmica. os assuntos começam a não vir, a inspiração é afetada e a culpa, minha tão grande culpa fica seriamente comprometida. pior é que nem começei esse sacrilégio da monografia e já estou dramática desse jeito.... por isso queiram me desculpar pelo excesso de futilidade, de desabafos e porcariada.

sexta-feira, dezembro 15, 2006

poema de repartições

saiam do sofá
lá fora a chuva cai ligeira
dá para todo mundo entrar
hoje a banda vai passar
com o melhor da música popular,
canções de domingo e de dançar

chama o povo para o almoço
sem fazer muito alvoroço
que antes vamos rezar,
um minuto de silêncio
promessa pra São Lourenço
Oferta pra Iemanjá

mais tarde é o falatório
discurso, política, relatório
do pão da Tia Inez
do circo do mestre Osmar

a noite é pra namorar
no carro, na cama,
no chão, no altar
trocar poemas,
fazer rimar.

"a vida é muito segundas e sábados"

Meus dedos se esforçam para segurá-la, enquanto a sentem rasgando.
Dói o pensamento quando percebo nosso desatino, a ausência de prumo e porto e portas para fugir. Que eu esteja longe de fatalismos, mas o quê vamos fazer daqui pra frente além de cuidar, cada um de si? Se escuto alguém cantar o amor, volto a acreditar. Mas quando saio mundo afora, o volume fica baixinho, baixinho, até sumir. E some, como muitas outras coisas que eu sinto falta: carinho de mãe, afago nos cabelos, famílias gigantescas, o mundo em desconforto, incomôdo, proferindo discursos sinceros, poemas soltos, versinhos e canções de roda, crianças brincando na rua, no meio da rua e homens brincando com as horas. Estamos nos procurando do lado de dentro.
Se pudesse fazer um último bilhetinho antes de viajar, deixaria escrito uma poesia sobre o desejo que sinto de mudar. e com o mundo, trabandear pro lado de cá.

quinta-feira, dezembro 14, 2006

rascunhos de tempos distantes

Com os pés para o alto, lia um encarte e analisava as próprias curvas: arredondadas e assimétricas, tal qual Vênus com seus cabelos arruivados. Da tinta para o papel, muitos segredos que emperram a caneta. Desistiu. Calçou os chinelos, trocou a música e foi esquecê-lo.

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Trecho de uma conversa dura. Ou conversa mole para cercar Lorena.
- você se perdeu. (silêncio). Você tá inquieta. Nessa de se entender, é que você ficou mais perdida
- "se entender" ?! (indignação). Ah! Isso é burrice, viagem à toa, coisa de auta-ajuda mais chula. Não tem nada a ver com isso, só que tão muito bagunçadas as coisas aqui e ....
- não foi isso que eu quis dizer. Não era nesse sentido. É como se sua bússola perdesse a referência: nem você se encontra nem as pessoas encontram você..
- ..... (mais indignação)
Surtos de pscicologismo e ainda com parábolas, eh foda!!!!
o não dito: e alguém está por aqui para achar outros? Estamos aqui pra cruzar, coincidir, interpelar vias, passar, ficar ou simplesmente não se decidir.

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Sou do lado mais fraco, onde a corda se arrebenta e eu também. Minha preferência é por quem sofre, por quem chora, pelos moralmente mais fracos. Os desavisados. Eu admiro o que não presta. Quem nada vale! Gosto dos que tem fome, dos que morrem de vontade, dos que secam de desejo, dos que ardem. Ando tão penalizada, pelos que pedem socorro, os que o coração não bate nem apanha, não sentem amor, nem dor, já não sentem nada. Sou porque desse lado também eu estou.

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Por quê inteligência emocional não funciona nos momentos de emoção? Por quê a recíproca não é verdadeira? Por quê falar é mais difícil que me jogar no colchão? Por quê eu estou escrevendo isso se eu já não tinha esquecido?


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No bilhetinho escreveu:
Palavras para uma certa criatura, intrometida que entrou no meu coração, oco, (ou na minha cabeça oca).
E o que vou dizer lá em casa?
Como é que eu vou explicar pra família,
para as tias solteiras e os avós já debilitados?
O que direi aos vizinhos, ao terapeuta, às senhoras da missa,
à moça da faxina, ao dono do bar?
O que diremos um ao outro quando for para se encontrar
?

quarta-feira, dezembro 13, 2006

07:07

que as coincidências existam, deixando inconteste a dimensão transcendente em que estamos inseridos, tudo bem. Mas com hora marcada?! Há tempos o fato vem se repetindo: 17:17, 08:08, 11:11, 00:00... e meu espírito superticioso não se conforma com essa pontualidade displiscente. Na busca por explicações caseiras, físicas, astrais, nada muito esclarecedor. Será um sinal de equilíbrio? Do encontro marcado? Da paridade? Tento, mas não consigo elaborar nenhuma simpatia que compense.

terça-feira, dezembro 12, 2006

do seu encanto....

as pessoas não morrem, ficam encantadas
GR
O céu manso de dezembro o esperava. Eu não sabia o quanto custava o encantamento. Naquela capela simples de interior, entre as paredes azuis envelhecidas e as flores de plásticos que bordavam o altar, senhores distintos acenavam em despedida com seu chapéus. Comecei a ter saudade nesse instante. Saudade do que ele foi e ninguém mais no mundo poderá ser. Essa não repetição que ora atormenta ora consola. E tratei de juntar as lembranças que tinha dos seus olhos, da sua voz, das mãos trêmulas, do jeito discreto, guardando um silêncio que observava o mundo no seu banquinho de alpendre, para, assim, manusear os "malabares de aço" e depois chorar baixinho a falta que ele faz.

foto dos 70 anos. desconsolo depois que o levaram do forró bodó

terça-feira, dezembro 05, 2006

Especial de fim de ano


Numa metáfora bem singela, minha vida, nesses últimos doze meses, tornou-se uma caixinha de quinquilharias, tão bagunçada que não consegui fechá-la, não conseguir achar meus pertences e ainda deixei que todo mundo mexesse um pouquinho, roubando coisas que me são de direito. Primeiro, criei expectativas. Achei que nesse ano a guinada ia ser completa. Só que não escolhi o lado. Depois, deixei tudo pela metade. Restos espalhados pela gaveta, emperrando-a; as fotos das pessoas que estimo fui deixando no fundo, porque relembrar só me fazia sofrer. Vi minha eterna companheira de mala e cuia, pegando a estrada e me deixando só. Vi o sofá azul, impregnado de histórias e lembranças das pessoas que amei, ter um fim trágico. Vi meus amigos se casar, mudar de endereço, pegar diploma, ter seus filhos, perder o emprego, se apaixonar. E eu no mesmo lugar. Rezei pouco, blasfemei menos ainda, segurei o riso, o sono, o choro, bebi só socialmente, agi com cautela, adaptei. Me preocupei demais com os outros. Me preocupei demais comigo. Não inventei nenhuma simpatia, não xinguei muito palavrão, não chorei de amor, não fiz planos de vingança, não pedi colo, não catei ninguém pelos cabelos, não comi porcaria, não me tatuei, nem me declarei, nem tomei banho a dois. Meu gráfico esteve constante. E quando mexia na caixinha, o cheiro de mofo vinha me perturbar. Mas nada eu joguei fora. Como a vovó fazia com seu guarda-louça, cheio de páginas de revista, miudezas e a chave de São Pedro.

nos dias santos, eu rezo


o harley dessa vez não achou graça. ficou me olhando firme, como quem quer desvendar a situação ou deixar uma palavra de conforto. "eh, amigo, as desventuras em série ás vezes perdem a graça!". Usou de todo seu conhecimento exato e de sua destreza com as mulheres, mas a dúvida se instalava naqueles olhos investigativos. Ele tentou pela teoria da reorientação dos átomos, eu insisti com a relatividade, e por fim apelou para a quântica: ponha estes joelhos no chão e reze!

violação de domicílio

Nunca haviam amado tanto. Parecia um recipiente que, com um furo pequeno, derramava todo o líquido em segundos. Quando se encontravam, o clima retorcia, os olhos se travavam numa briga ferrenha, para, enfim, partirem para a esgrima de línguas, e mãos, e sexos. Perderam a compostura rapidamente. Deitados na cama, riam de tantas pequenas coisas e assim o mundo foi ficando do tamanho do quarto. Perdiam a hora, gastavam o que não tinham, arriscavam compromissos e tudo foi tornando-se incontrolável. Ele titubeou primeiro. Teve medo, quis faltar aos encontros, mas ela fez-se de inatingível. Isso vai acabar mesmo, um dia. Mas nas roupas foi ficando o perfume de todas as vezes que o sentimento esteve ali, entre os lençóis. Queriam voltar, mas já iam longe. Na primeira vez que não foi, sentiu até arrepios. Os cheiros vinham convulsivos, as imagens, a voz. Procurou o dia todo o que não estava ali. No outro dia estavam lá, cúmplices, secos de desejo. E cada vez que se afastavam, era quando mais estavam juntos. Até que começaram as perguntas, os raciocínios lógicos que hora ou outra entram onde não são bem vindos e depois de tantas discussões, o sentimento foi dissolvendo entre outros sentimentos. Cada encontro trazia o peso do dia em que iria acabar mesmo. Nunca se odiaram tanto.

segunda-feira, dezembro 04, 2006

elas não me saem da cabeça:

Soergo meu passado e meu futuro
E digo à boca do
Tempo que os devore.
E degustando o êxito do Agora
A cada instante me vejo renascendo

E no teu rosto. Túlio, faz-se um
Tempo Imperecível, justo
Igual à hora primeira, nova, hora-menina
Quando se morde o fruto.
Faz-se o Presente.
em olhar para trás nem para frente:
Indescritível, recortada, fixa.

Translúcida me vejo na tua vida
Hilda




Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha

Fases que vão e que vêm,
no secreto calendárioque um astrólogo
arbitrárioinventou para meu uso.
E roda a melancoliaseu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua...)
No dia de alguém ser meunão é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia, o outro desapareceu...
Cecília
se avexe não, que amanhã pode acontecer tudo, inclusive nada
se avexe não que a lagarta rasteja até o dia eme que cria asa
musiquinha do filme A Máquina