quarta-feira, novembro 29, 2006

Violação de conduta


Era um dia de semana. De meio de semana. Estava saindo do trabalho e pensando no resto de dia que teria para repetir a rotina, almoçar, passar no banco, trabalhar, ir ao mercardo, buscar a noiva, agüentar os professores inconvenientes que provavelmente estariam com ela. Colocar filhos no mundo? Quase um crime!. Ela afirmava que não tinha relação com esse espírito de contenção de esperma da sua geração pessimista de letrados. Só queria estabilidade. Por ele, tanto fazia, porque seus sonhos já haviam sido jogados na roleta.

Mais uma vez aquela placa. Não iam tirar aquele out door dali? Que porcaria! A imagem era de um homem de terno, sério, tentando esconder uma tatuagem do braço que chegava até a mão. O slogan era uma espécie de aviso de que um dia você vai se soltar ou alguma coisa do tipo. Começou a implicar com essa plaqueta no dia que viu um desses programas de insônicos, sobre a tal obrigação de felicidade dos homens modernos. Uma desgraça!

Na esquina da rua 25, lembrou do livro que não devolveu semana passada e resolveu estacionar próximo ao prédio. A recepcionista, com a cara coberta de pó e a boca exibindo um batom violentamente vermelho, não percebe os olhos de desprezo lançado à ela. “Fulano, por favor”. “Pois, não. Seu nome?”. “Diz que tem um livro aqui na recepção para ele, tá bom?”. “Só um instante, ele está descendo”. Acabou cedendo ao convite do amigo para um café na cafeteria ao lado. Tinha sido reformada, e estava com mais cara de recinto em que pessoas passam para um lanche. Expresso com leite. As mesinhas eram pequenas, o que de certa forma era bom, pois impedia que terceiros requisitassem assento. Conversavam entusiasmados com um possível projeto cultural em parceria. Nada extraordinário, mas era trabalho e dinheiro extra.
No balcão, não percebia a atenção dada pela gerente. Os olhos apertados, fechavam ainda mais para enxergar aquele rosto, enquanto atendia aos outros clientes sem muita prestabilidade. Ele se levantou e foi pedir um cigarro. Pela voz teve certeza da pessoa que esperava. “Ainda fumando?”. Não a reconheceu. Ela, exercendo seu ritmo impaciente, logo revelou quem era. Sem grandes emoções, secos como eram, olharam admirados aquele reencontro. Era visível a surpresa do outro lado, depois de quase quinze anos sem nunca mais terem se visto, ver aquela figura em sua frente, mais corpulenta, o cabelo bem cortado, os olhos maquiados, roupas simples e atendendo num balcão. Riram.
Aos poucos foram entendendo o que cada um fazia ali. Ela tinha saído para estudar, morou fora uns doze anos e há três estava pulando de cidade em cidade com um companheiro para abrirem um Café. O projeto era um bistrô, mesmo porque ela não levava jeito com estabelecimentos e ficaria por conta da parte artística. Mas faltou uma grana e eles resolveram começar reformando aquele espaço. Ele tinha se formado, trabalhava numa empresa que elaborava projetos sociais e culturais para entidades, comprou um carro e tinha perdido o pai. O amigo desistiu de esperar e foi-se empora.
Passaram um bom tempo conversando, tentando desvendar a lacuna dos anos afastados, contando as histórias e provando os diferentes tipos de café. Depois seguiu sua rotina, numa tentativa esforçada de concentrar-se em outra coisa que não fosse aquele inusitado encontro. Nem percebeu que o out door estava sendo substituído.

Meu poder de mar nunca me escapou. De amar, de amargar, de argumentar, nada cessa. Mas desacelera a cada vez que interrompem meu salto no ar. Fico vagando então, esperando meu solstício de inverno, invertendo o fuso, em gestos descomunais pra não sentir o sal de amar.

domingo, novembro 26, 2006

Joselitismo:o mal do século


(sobre a experiência surreal com Bnegão)
Cedo, vou atrás dos caras. Bernardo, o Bnegão e Fábio, o produtor. Meio traumatizada com esse negócio de acordar as pessoas nos hotéis, peço que interfonem no quarto. Em pouco tempo descem os dois. Me vem a memória a fala de um amigo “ você sabe como são esses maconheiros. Vão atrasar”. E quase inconscientemente fixo no olho do negão. Não dá pra ver muita coisa por causa dos óculos retrô que ele usa. Realmente é muito largão, e as mãos são bem gordinhas. A indumentária é simples, mas o balanço quando ele caminha é muito próprio. Tento disfarçar a incontrolável sensação que é estar tão próxima a um artista que você curte. Fica de boa. Boca fechada. Aproximo do produtor que é mais franzino e parece menos ofensivo. O silêncio não é o meu forte e por sorte também não é o deles. Vamos falando sobre o show de Brasília, o festival daqui, ele pede para sintonizar na rádio que tocava ô simpático, funk do filme Quase dois irmãos que eu assisti umas vinte vezes, solta uns comentários bem humorados e o clima vai ficando ameno.
O programa é muito sério para uma ocasião dessas. Não supera muito minhas expectativas (mesmo porque elas são sempre maiores), mas penso que já valeu. Fico tentando decodificar as falas sobre música independente, a história da Dança do patinho, sua profecia de que a humanidade está sofrendo da doença da joselitagem, um non sense coletivo, suas piadinhas sobre músicos top top, os palavrões, as gírias. Percebo um enorme esforço dele para organizar o raciocínio, conter a onda que é intrínseca à sua pessoa. No ar, reclama que seu estômago está roncando. Parece à vontade. Na ilha recebo um telefonema do meu chefe indireto (que é fã do cara) convidando para um almoço. Como ele fala muito rápido, empolgado não entendo se ele quer fazer uma graça ou se é só para forçar amizade mesmo. Presumo que sejam as duas coisas. Por desencargo de consciência, dou um toque no produtor, “é, o cara chamou vocês para almoçar numa churrascaria aqui perto, mas sei que vocês têm que voltar para o hotel”. “Mas é patrocinado? Porque acho melhor almoçarmos por aqui”. Assumo que não entendi se ele iria bancar.
Deixamos de lado a idéia, só que na espera pelo carro, a conversa foi ficando boa, pedindo uma cerveja e acabo voltando ao lance do almoço. Para nossa alegria, descubro que o “chefe” queria pagar a farra pra todo mundo. Fomos. Bnegão começa a história do show que fez com Tony Allen, do lance de tocarem juntos. Ele realmente fala muita gíria, mas engraçado que não é chato. Falamos muito. Descobri que como eu ele não é bom com endereços. Nos perdemos e daí começo a me arrepender em levar os dois para esse almoço. O “chefe” do outro lado parece alto e quando nos vê chegando, começa o escândalo. “ Aaaaarh, porra, como vocês não me viram. E aí Bnegão?! Aaaaaarrhhh! Vamo descer. Como vai essa força? Arhhhhhhh”. Arrependo.
O cara estava completamente embebido no álcool, de boca mole e frases dissolvidas como bem disse o Bnegão. Falava desconexamente, sobre um tal programa “bem Goiás” e da sua viagem ao Rio, e da sua história musical e disso e daquilo. De repente, implicou com o fato do ídolo não comer carne e não tomar cerveja. Vemos ali, personificada, a profecia de Bnegão. Ele e seu fiel escudeiro ( que a essa altura já havia recebido o codinome de Fabão) se acabavam de rir, enquanto eu e minha companheira nos divertíamos com aquela situação hilária: um almoço, num muquifo, em companhia de um figurão encachaçado e os dois visitantes ilustres. Antes que a coisa piorasse, pedi um carro para nos levar ao hotel. Por fim, numa esquina do centrão de Goiânia, depois de um abraço demorado e sincero de despedida, pude perceber que tínhamos proporcionado aos caras uma fuga da rotina, um momento original que já vai virar história entre as outras do Bnegão. Tomara.

terça-feira, novembro 21, 2006

violação de correspondência

Eram amigos há uns cinco anos.
- Seis – disse ele conferindo as meias para colocar na mala.
- Não, essa de listrinha deixa aí!
- Melhor deixar essa preta horrível. Meinha feia!
Conheceram-se num boteco por causa de uns amigos em comum que faziam faculdade. Ela era do Design e tinha conseguido um trabalho em Belo Horizonte. Não tinha muitos amigos, não era de muita conversa, mas por algum motivo, simpatizaram-se. Folgado como era, no primeiro dia pediu cama na quitinete em que ela morava e daí por diante virou rotina. Não eram de ficar muito junto. Mesmo assim a intimidade veio, a invasão de privacidade, as brigas, as histórias. Ele, um introspectivo sem jeito com mulheres. Chegou a morar com uma ex-namorada, mas não duraram quarenta dias. Ela tinha pena. Não tinha coragem de dizer que a namorada era uma burguesinha chegada a umas experiências sexuais múltiplas. Soube por uma amiga que fotografou a fulana. Terminaram quando ela encucou em fazer um filme sem roupa.
- Se ela fosse atriz, porra! – justificava
- É foda!
Conselhos não eram o seu forte, mas ouvia sem reclamar as lamúrias dos outros. Por isso seus relacionamentos eram problemáticos. Ouvia tanto que se tornava amiga demais. Uma vez encheu o saco e disse pro namorado:
- Você quer ombro, é? - e deu-lhe com o ombro na cara.
Depois ria sozinha do episódio.
Quando disse que ia embora, ele achou bom, torcia pra ela ter um emprego, se dar bem e ter uma grana razoável. Depois ficou sentido, começou a olhar com distância a situação. Veio uma nostalgia das festas, dos porres, da camisola, do café que ela fazia. Sentiu-se ridículo. Preferiu mesmo que ela fosse embora, para cessar aquela paranóia. Por fim ela foi. Não tocaram no assunto. Deu-lhe um CD de música com uma dessas frases batidas no encarte, “Sofro calado pra não te dizer, a cada segundo, o que é um segundo sem você”. Ela deixou a meia preta.

segunda-feira, novembro 20, 2006



UM ANO DE LOROTA!

Passou em branco, como muitas outras datas passam. 14 de novembro, numa quase sexta, o buraco negro começou a se alastrar. e aqui estamos um ano depois. quanta coisa inútil, mal escrita, sem graça! entretanto, criar um espaço para blasfêmias foi o melhor antídoto que encontrei.

quarta-feira, novembro 01, 2006

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submundo: é tão importante mergulhar, quanto sair à tona. ontem, sentada na saleta entre a parede de armário embutido e a poltrona do analista, falava dos meus conflitos, quando proferi uma frase do tipo: tenho que lidar com as conseqências do que sou. calei-me. começei a rir. depois de quatro meses, acho que tinha chegado à alguma "conclusão". pude sentir o ar de satisfação da pessoa da outra poltrona. parece óbvio, né? mas para o inconsciente nada é óbvio.
horóscopo: quem diria. nunca usei este método de distração. até que li uma coisa sobre meu signo interessante: "na maioria das vezes, as pessoas, deixam seus desejos de lado e se acomodam confortavelmente em padrões de relacionamentos já experimentados, dos quais se tornam funcionárias". pode? eu me tornando uma funcionária sentimental? demissão já!
metereologia: definitivamente sou do frio. preciso do vento gelado entrepassando meus cabelos. preciso do arrepio, as pontinhas dos seios rígidas, os pés dormentes, o cobertor pesado e café quente para quebrar o gelo.
bilhete: meus planos de fuga não cessam. quando não se é de lugar nenhum (e não se tem dinheiro algum) o mundo torna-se traçado à régua. hoje, lendo umas aventuras de uma jornalista em Nova York (eu eu nunca tive vontade de rumar pra lá) senti dentro de um quarto de bagunça. apertado, quente e ... cheio de tranquêra. não me ofereçam carona, per favore!