sexta-feira, maio 14, 2010

Riders on the storm

(Sugestão: ouça enquanto lê)


        Meu contato com a música sempre foi precário. Primeiro só tínhamos rádio. Isso significa que a escolha nunca era nossa. E como viemos de uma cidade pequena, as opções de rádio eram poucas. Duas na verdade. Mas para esse tipo de problema sempre existem os amigos, as casas dos amigos e os aparelhos de som dos amigos. Sim esse era era o nome,  "aparelho de som". Parecia algo tão engenhoso que eu mesma tinha medo de mudar de música e estragar o tocador. Até o dia em que meu pai com o 13º comprou um aparelho pra casa. Era enorme, todo preto e cheio de botões ( depois eu viria descobrir a inutilidade deles). Tinha cinco andares e veio com dois discos de brinde: Gal Costa e Chico Buarque. Eu já conhecia e gostava, mas agora podia ouvir a qualquer momento, em casa, sem preocupações com o bem alheio.
       Nessa época, passei a gostar muito de "Tatuagem" do Chico e a odiar o Milton Nascimento, por causa de um disco caído que ganhamos. Foi então que tivemos acesso ao acervo dos irmãos mais velhos de uma amiga. Irmãos mais velhos de amiga é uma coisa importantíssima na vida de uma garota. E foi aí que tive minha primeira tarde com The Doors e Pink Floyd. Como eram gringas, os pais não entendiam as letras e não nos repreendia. A não ser quando o volume subia alguns decibéis. E isso, vocês sabem, é o que precisa acontecer.
       A música pra mim, passou a ter uma relação direta com a privacidade, já que ouvir música nos lugares onde morei era sempre uma ação coletiva. Levava meu rádio pro banho, dormia com o walk man na orelha e fazia de tudo para ficar sozinha em casa. Só pra poder passar minhas tardes com mais gente. Com o Nirvana foi assim também. E com o Red Hot mais tarde.
       Esses dias achei um cd bem velho do The Doors no carro. Quando começou o barulho da chuva, fui direto pra sala de casa, de azuleijo antigo, de frente pro enorme "aparelho de som", ao som riscado da agulha. Chorei compulsivamente