terça-feira, maio 23, 2006

la comedia


O filme não tem nada demais. É apenas mais um na dança da solidão. Mas como todo filme mexe com alguma coisa em nós que não cicatrizou, assim também é com Não é você, sou eu. A história de um médico argentino, que tinha um vida estável, um casamento bacana e tal. Até que um dia, assim como outro qualquer, depois de ter pedido demissão, vendido seu ap, o carro e ter comprado uma passagem de U$ 800,00 para Miami, descobre que sua esposa não estava lá. E pior, já tinha uma outra companhia. Aí a história segue, mostrando que uma fossa é sempre uma fossa....

O que realmente salva é ver as coisas com humor. Rir do que é desgraçadamente ruim. Tornar essa penúria uma risada boa, uma lembrança do ridículo... Não tem outro recurso mesmo. Eu e minha comparça sabemos bem disso. Ao sairmos do filme para um lanche rotineiro, conversando sobre as teorias dos relacionamentos, adentramos um recinto com a seguinte composição; quatro bibas displiscentes sentadas numa mesa, um casal (também homosexual) trocando declarações mais a frente, três mulheres, a mãe, a vó e a divorciada enfurecida que relatava sua experiência de separação e por fim uma casal de menos de vinte anos, um bebê e toda aquela problemática social. Interrompemos nossas teorias. A saída foi rir e nos convencer de que há muito humor nas nossas frustações.

sexta-feira, maio 05, 2006

tudo que não me deixa em paz

Não simpatizo com nada muito perfeito. Tudo muito certo é um horror. Também não gosto de conversa de funcionário público, nem de senhores sem camisa que cantam as passantes. Não vou com a cara fresca daquelas meninas. Não suporto intelectual manjado. Prefiro quem erra e depois ri um tempão. Por favor, não me peçam pra decidir nada porque eu sofro. Odeio ter que optar e ter que convencer os outros. Mas minha opinião eu tenho que colocar pra fora. O silêncio pra mim é terrível. Agonizante. Não gosto de não ter intimidade com algumas pessoas. Mas melhor assim. As coisas artificiais não prestam. Também acho ruim quando não sei os caminhos, quando não sei as letras, quando não sei o que dizer. Não gosto de mentir, mas minto. Não gosto de manha, mas faço. Detesto quando falam de dinheiro. Quando comentam o óbvio. Fico puta com gente medíocre. Me divirto é com humor negro, com bêbados, com gente que não dá muita importância. Adoro quando fico entre homens. Seus cheiros, suas falas, seus abraços. Adoro sentir desejo, desde que seja dona deles. Gosto de amores que doem, de fim de caso, de saudade. São bonitos como ver o sol indo embora. Gosto do céu cinza e de ver desenho de manhã. Adoro doce fora de hora e beijinhos no pescoço. Filmes de animais que falam? Tenha paciência. Tenho gastura de casaisinhos felizes. Prefiro os olhares discretos e os gestos sutis. Invento simpatias. Gosto de ir à igreja quando não tem ninguém. Café da manhã sem café, não dá. Não suporto a idéia de que temos que ser felizes sempre. Me dá um tédio esquisito. Admiro as pessoas com suas dores. Desejo que um dia façam uma música pra mim. Desejo um dia cantar fora do banheiro. Queria também que a modas das rechonchudas voltasse logo. Às vezes tenho vontade de parar o mundo e descer. Noutras tenho loucura por essa vida, assim, sem tirar nem pôr.

no outro dia


A fumaça ainda na garganta
O álcool ainda na saliva
A boca quente, os olhos pálidos,
Cheios de lágrimas que não caem.
Tudo dormente.
A alma pesa
Presa ao corpo sujo.
Doem os músculos.
Os cheiros vêm, as cenas passam.
Tudo suspenso no ar.
Tudo deseja não acordar.

a última ceia

Diz a lenda que
Tudo aquilo deixado no prato
Vai se amontoando no céu.
E quando chegarmos lá,
Teremos que cear sem o menor apetite
Fico pensando nos homens que pus no prato.