quinta-feira, janeiro 19, 2006

Reprise



Tentando traduzir o intraduzível seria mais ou menos assim: Estamos assistindo a um filme, em que uma história de amor conduz a trama. Duas pessoas, sentimentos fortes, ocasiões inusitadas, aquelas cenas em que estão se conhecendo, fazendo coisas simples, há o lance do olhar, do beijo e depois aquelas cenas bem fatais de sexo ( o velho e bom amor romântico). Então começamos a nos envolver, a torcer por um final bacana, pra que os dois fiquem juntos, criamos espectativas sobre aquilo e simplismente o filme acaba. Assim, inexplicavelmente. Você envolvido pela história, apostando nos sentimentos e a merda do filme acaba. Ficamos perplexos. Uma total impressão de non sense. Incrédulos. Primeiro que você nem sabe pra onde ir. Nem sabe o que pensar. Depois, quando começa a perceber que acabou, vem uma nostalgia, uma ausência, um silêncio.... Não dá mais pra ligar, pra conversar como antes, nem dividir as coisas ou dar palpite e nem fazer planos. Aí, como vai ficando doloroso, partimos para o choro calado. Quando ficamos sós, no chuveiro, na cama, uma música, um certo cheiro, um gesto, um comentário, um lugar, tudo são lembranças que se alojam, mesmo que haja uma força contrária de exorcizar os vestígios, tirar as fotos, engavetar os badulaques, apagar números, e-mails, deixar certos lugares. No pensamento tudo permanece intocável.

Junto às lembranças, ás vezes fantasmagóricas, vão tomando forma as versões pro final desse filme. Criamos histórias, situações, imagens ilusórias e parece tão certo que aquele era o amor da nossa vida, que éramos um a medida do outro. Passamos a nos reconhecer em todas as músicas e filmes. A procurar a nossa história. Esperamos insanamente que o outro nos procure no prédio, no trabalho ou quando dobrarmos a esquina. E o tempo se encarrega de mostrar que nada disso vai acontecer. A história realmente terminou. Aqui se iniciam as reflexões. Começam os projetos, as transformações, o novo corte, o novo livro, as distrações, os planos de vingança que nunca serão cumpridos. Contamos a mesma história ínumeras vezes, escrevemos, tentativas de lançar fora o que sentimos. Buscamos outros, outras, vários. Brindamos a noite, chegamos embriagados, dançamos ridiculamente e no fim o buraquinho interior vira uma fossa. O terrível e árduo ofício de esquecer. Arrancar de dentro o que já se encarnou em nós. Inútil. Imagine chorar em boteco, falar sozinho, desviar o caminho por precaução, investigar “discretamente" a vida alheia, trocar nomes, se valer de mandingas....ao menos nos renderão boas risadas.

Assim me parecem as desilusões. Filmes inacabados. Obras infindadas amontoando-se dentro de nós. Servem para revê-las e tentar fazer diferente da próxima vez.

terça-feira, janeiro 17, 2006

Amistoso

A chamada despertou minha atenção: Ratinho e Zé Celso Martinez juntos numa entrevista no Dois a Um. Fui obrigada a assistir ao Fantástico, aquela voz rídicula do Cid Moreira e depois aquela boboseira de Casamento à moda antiga. Gente, o que é aquilo?! Enfim, entram em cena os entrevistados. O Ratinho com discursos agarrados ao senso comum, uma postura machista e conservadora, característica que ele mesmo assumiu às vezes orgulhoso, outras vezes justificando-se por colocações tão desastrosas. " O MST é capitalista, extremamente, porque eles invadem uma fazenda desapropriam o dono, mas eles passam a ser os donos, eles mandam".
O Zé Celso parecia estar num jantar entre amigos, ficava pensativo, aquele intelectual sacana, com um gestual expressivo e , claro, teatral. Primeira pergunta da Mônica era sobre o grande abismo entre os dois tipos de comunicação exercida pelos convidados e a relação arte/povão. Aí tiveram aquelas argumentações, não é bem assim, isso é típico de um país plural como o Brasil, isso se deve ao grande poder massificador da televisão, o povo também produz arte e por aí vai. Foram.
Mas, o curioso é que todo enfrentamento proposital acaba amistosamente, embora os olhares e pensamentos expressos fossem de pasmo, de desânimo ou de repúdio.
Só alguns trechos para imarginarmos a situação
Ratinho: Eu não consigo fazer coisa séria, eu sou um palahaço, eu trabalhei com circo....
Zé (um tanto ironicamente): Nossa que bárbaro, minha escola tem muito de circo!
(...)
Ratinho no seu momento de euforia : A democracia deveria existir, mas no Brasil ela falha...
Zé, interrompendo, no seu momento de meditação: Nossa gente, esse momento, esse encontro, nós três, isso pode ser algo muito importante...
(...)
Zé: então eu estava trabalhando Nelson Rodrigues, um peça....
Ratinho; Ah, o Nelson com seus moralismos...ele era machista pra caramba!
Zé: Não!!!Que isso!?Não, ele era uma moça......

Fiqei imaginando como cada um contou aos amigos sobre esse encontro.

terça-feira, janeiro 10, 2006

Virada Milagrosa

Pirinópolis. Esse era o destino. O mais acessível para mim e o mais exótico para os meninos. Pegamos a estrada umas 5h, eu e os meninos. Parada em Brasília num típico passeio turístico, só que por volta de 1 da manhã. E desde então começaram os milagres. Primeiro o 2.0 do Paulinho que gastou menos grana que o previsto. Depois a Renata que ganhou cerveja da cidade inteira e ainda descolou entradas para um reggae sem gastar um puto. Tudo bem que tivemos que correr do Raul, mas enfim .... O Cláudio conseguiu o milagre de me fazer pular naquele poço sem fundo e perder um dos meus maiores medos. A Brenda que, milagrosamante, consegue fazer qualquer situação, por mais estranha que ela seja, ser incrívelmente hilária. Até o milagre transcendental de mandar flores pra Iemanjá em pleno cerrado a gente conseguiu....E também a aparição de um anjo milagroso em meio àquela muvuca exótica que tornou essa virada uma delícia. Amigos loucos é uma benção!!!! Por fim, eu e os caras que voltamos à terra mineira , depois de uma viagem regada à banana desidratada, siriguela e buracos. É mole?!
Um ano novo, novíssimo e com emoção.