Um buraco nasce assim:
Silencioso.
Não se percebe
até ganhar um tamanho notável.
Então tenta cobrir. Não cobre.
Tenta encher. Não cabe.
E se aumentar? E se te devorar?
Enquanto isso, outros buracos.
Meu contato com a música sempre foi precário. Primeiro só tínhamos rádio. Isso significa que a escolha nunca era nossa. E como viemos de uma cidade pequena, as opções de rádio eram poucas. Duas na verdade. Mas para esse tipo de problema sempre existem os amigos, as casas dos amigos e os aparelhos de som dos amigos. Sim esse era era o nome, "aparelho de som". Parecia algo tão engenhoso que eu mesma tinha medo de mudar de música e estragar o tocador. Até o dia em que meu pai com o 13º comprou um aparelho pra casa. Era enorme, todo preto e cheio de botões ( depois eu viria descobrir a inutilidade deles). Tinha cinco andares e veio com dois discos de brinde: Gal Costa e Chico Buarque. Eu já conhecia e gostava, mas agora podia ouvir a qualquer momento, em casa, sem preocupações com o bem alheio.
Nessa época, passei a gostar muito de "Tatuagem" do Chico e a odiar o Milton Nascimento, por causa de um disco caído que ganhamos. Foi então que tivemos acesso ao acervo dos irmãos mais velhos de uma amiga. Irmãos mais velhos de amiga é uma coisa importantíssima na vida de uma garota. E foi aí que tive minha primeira tarde com The Doors e Pink Floyd. Como eram gringas, os pais não entendiam as letras e não nos repreendia. A não ser quando o volume subia alguns decibéis. E isso, vocês sabem, é o que precisa acontecer.
A música pra mim, passou a ter uma relação direta com a privacidade, já que ouvir música nos lugares onde morei era sempre uma ação coletiva. Levava meu rádio pro banho, dormia com o walk man na orelha e fazia de tudo para ficar sozinha em casa. Só pra poder passar minhas tardes com mais gente. Com o Nirvana foi assim também. E com o Red Hot mais tarde.
Esses dias achei um cd bem velho do The Doors no carro. Quando começou o barulho da chuva, fui direto pra sala de casa, de azuleijo antigo, de frente pro enorme "aparelho de som", ao som riscado da agulha. Chorei compulsivamente
Pois é, fiquei com a impressão que a gente chegou tão perto, tão perto que ficou difícil enxergar. Você me fez chorar, me fez pensar tudo pra saber onde a gente foi parar. E agora eu te digo: não sei mas bastou seu sorriso não vir nessa manhã pra eu entender o quanto eu amo você E lembrei da primeira manhã, da música no carro e dos dias de janeiro e bastou isso pra eu me apaixonar
Já percebi ( por estatística) que meus dilemas já não interessam a ninguém. Sem problemas. Continuarei enquanto o serviço for gratuito. Minha mais nova ocupação se chama síndrome do "terceiromundismo". (Que fique claro que o termo não está empregado no sentido geopolítico da palavra). A síndrome se resume a um estado de espírito. O mesmo que sentia quando comecei a nadar e tinha uma ânsia de dominar logo aquilo, atravessar a piscina e dar as braçadas com total domínio da ação .... mas o folêgo não me acompanhava e até aprender, foram várias pausas no meio do trajeto. Agora vivo uma imensa angústia de compreender esse mundo, esse lugar onde vim parar e suas heranças .... mas sinto apenas o cansaço de correr atrás de um prejuízo que eu nem sei qual é. Já me perdi no meio de tantos assuntos para decifrar e temo não ver o dia em que conseguirei enxergar além, muito além.