terça-feira, dezembro 20, 2005

Entre gatos


Afinal, o que há de tão fabuloso nisto tudo? O ponto que nos liga, no qual culminamos. A simplicidade mais bem vinda e ao mesmo tempo repugnada pela nossa complexa existência. É isso que “O fabuloso destino de Amèlie Poulain” capta. Sensações compartilhadas por nós em experimentar as pequenas delícias do corpo, as curiosidades mais absurdas que guardamos, nossa capacidade de inventar criar, nesse processo de reconhecimento do Outro, que acaba sendo o nosso próprio reconhecimento ( Que Levinás não me ouça). Cenas singelas (não na técnica que aliás mostra o minucioso trabalho de diretor, roteirista e cia ltda), diálogos de expressões, clichês dosados e nas horas certas. A história da exótica( e solitária) Amélie Poulain que resolve esmiuçar as vidas alheias para tentar ajudar as pessoas. Nisso, descobre a fragilidade das criaturas frente às lembranças de infância, os desejos particulares de cada um, o quê gostam e ou detestam e também suas decepções e amarguras. E num processo simultâneo a personagem vai descobrindo a si mesma. “Estranho o destino dessa jovem privada dela mesma, porém tão sensível ao charme discreto das coisas simples da vida”.
De repente passo a detestar quem aponta as pessoas que ainda acreditam em alteridade, em amor como sendo ridículas ou ingênuas. Mas por outro lado, entendo justamente o que nos faz deslumbrar diante da severidade e do pessimismo de Bukowiski ou diante da emoção e paixão de Vinícius de Moraes, por exemplo. Eles falam de nós. De tudo que nós somos, embora nem sempre gostemos de ser. Isso é o que nos atrai. Quando falam de dor, de morte, de indignação, de ausência, de saudade, de perda, nos reconhecemos. Da mesma forma quando falam de prazer, de amor, de sensibilidade, de fantasia, de coragem. Somos mesmo essa amálgama de personagens atormentados. E justamente por isso não há só nossa amargura estampada do lado de fora.
Numa conversa com uma pessoa,(dessas muito autênticas que realmente não se importa com a opinião alheia), chegamos à seguinte conclusão: A vida é sim um filme. Lógico! Quantas histórias dariam roteiros invejáveis. A merda é que, o quê vemos em duas horas, demoram lá seus 80 anos para concluir. E o meu final eu quero mais alegre que o da Hilda Hislt, por exemplo, que embora tenho sido uma das escritoras mais fodas que conheço, terminou sua vida com um monte de gato. Eu quero estar rodeada de pessoas.

Nota: isso remete à um comentário de Ferreira Gullar no filme Vinícius.....mas aguardemos

Passagens

Algumas situações da vida humana são hilárias. E alguns seres humanos que passam pela nossa vida então... Estava lembrando-me das senhoras que passaram roupas lá em casa nos últimos 15 anos. Foram figuras interessantíssimas da minha infância e adolescência. Nas tardes de terças sempre tinha companhia. Era passar pela varanda e lá vinham elas puxando um assunto ou outro. E quando o tema era política.....
A primeira (de que me lembro) era uma senhora um pouco mais velha que havia sido abandonada pelo marido. Quando este bateu as botas, foi obrigada a dividir a casa, a única herança do marido, com a amante do dito cujo. Ficou mais esperta depois desse episódio. Tornou-se muito dissimulada e ciumenta. Quando as coisas não corriam bem, simulava choros, fazia escândalos ou dizia estar doente para ser ajudada. E se não desse certo tais táticas, revidava com sua frase clássica “Vocês não gostam de pobre”. Na época das eleições da 89, ela era eleitora convicta do Collor e, às vezes, discutia com meu pai, que, como bom operário era Lula. Alegava que era um pecado não votar em um homem tão simpático. Depois de dois anos, por causa de um presidente simpático que foi “impeachamado”, dispensamo-la e ficamos muito tempo sem passadeiras por problemas de ordem financeira.
Anos depois veio outra senhora muito querida pela família. E como era caprichosa. Era uma terapia vê-la passar as camisas de uniforme de meu pai. Passei tardes inteiras conversando e escutando suas histórias. Certa vez, por ocasião da reeleição do Fernando Henrique, tentei explicar-lhe sobre a postura neo-liberal, o desastre das privatizações e os erros da gestão de FHC. De nada adiantou, é claro, as minhas explicações e ela ainda lançou um argumento para o qual eu não tive réplica. “Ah, meu bem, eu vou votar nele mesmo, porque desde que ele ganhou, todo dia a gente tem comido carne em casa”. Complicado. Para o Lula, então, ela deve ter feito até campanha, pois com esse projeto Fome Zero.....Meses depois, ela descobriu uma doença de chagas em seu coração e não poderia mais trabalhar. Foi uma perda irreparável.
Muitas outras vieram depois dessa. Houve uma, por exemplo, que era irmã de um candidato a vereador. Essa não gostava muito de política, mas sabia que se o irmão ganhasse, não precisaria mais passar roupa. Outra,veio anos depois. Não tocava muito nesse assunto de política, mas sabia aplicar bem as estratégias quando lhe eram conveniente.
Até minha tia foi parar na tábua de passar lá de casa. Como tinha reformado a casa e contraído muitas dívidas, o jeito era fazer uns “bicos”. A tia Jovita era do tipo eleitora de “quem dava mais”. Quanto maior o favor, maior a campanha. Também não admitia que falassem do Collor, porque ele foi o presidente mais bonito que o Brasil já teve. Ultimamente, andou apelando para o Lula, já que as dívidas ainda não foram pagas.
Essas foram minhas companheiras (não sei se cai muito bem essa expressão. Pode ter um cunho político) de discussões, com as quais passei boa parte das minhas terças. Hoje quem passa a roupa em casa é minha mãe, que, com toda a sua sabedoria política, sabe que quando a coisa aperta a solução é cortar gasto.


Nota: Estive semana passada com a primeira passadeira lá de casa. Amasiou-se com um antigo namorado, também viúvo e contou-me que a amante do falecido morreu “Engraçado que achei ruim quando recebi a notícia. Éramos até amigas” Não fala mais de política.

quinta-feira, dezembro 08, 2005

"A poesia não é de quem a faz, mas de quem precisa dela"

terça-feira, dezembro 06, 2005

L' innamorato

O filme Modigliani é encantador. Depois dele, arte nunca mais será a mesma coisa, amores nunca mais serão os mesmos, vinhos também não serão, poesias não são e Picasso....um fracasso. Convenhamos, o filme usa artifícios melodramáticos óbvios como a história de amor entre ele e sua musa inspiradora Jeanne, utiliza-se do velho truque do vilão representado por Picasso e da pobre vítima virtuosa, no caso, Modigliani.
Mas isso são adornos. O que apreende os corações é a força dos sentimentos desse artista por tudo a sua volta. Encarnado no papel do pintor italiano apaixonado, Andy Garcia revive a grande história de Modi, na era dos gênios Maurice Utrillo, Pablo Picasso, Diego Rivera e um restinho de Renoir. Um artista, no sentido mais completo que essa palavra possa ter, Modigliani é o retrato do que diz Adélia: nem todo artista é um exemplo de virtude, assim como nem todo mundo que é boa gente é artista. Ás vezes alguns jovens artistas me procuram, me mostram seu material e eu lhes digo: você é uma ótima pessoa. Não são artistas! Isso é um domque, graças a Deus, não é exclusivo para pessoas corretas.
Dostoievski é outro clássico exemplo. Quando recebia uma encomenda, era pago com antecedência e era lhe concedido um prazo para entregar seus escritos. Bebia e jogava todo seu dinheiro e quando ele acabava, às vezes faltando uma semana, aí sim ele escrevia.
Assim como Modigliani, muito fácil apaixonar-se por eles. São tudo que muitas vezes queremos ser. Desobedientes, loucos de amor pela vida (ou não) ou apenas bon vivant.
Salute, Modi!!!!

Continuo em crise




Horário do Jornal Nacional. Preguiçosamente estou em frente à Tv assistindo ao jornal mais babaca da televisão. Especificamente à reportagem sobre a saída de Dirceu. Perplexa, sem saber mais o que pensar, criando minhas teorias de conspiração. O que está acontecendo com a política no Brasil? Está cada vez mais insuportável assistir à televisão desde do início da crise (que na verdade sempre existiu, de tempo em tempos supita e a cada episódio... novos panos quentes). A ênfase que está sendo dada a essa CPI beira a obsessão. Onde quer que vá, qualquer assunto que começa termina com o mensalão. Aqueles militares aposentados, aqueles funcionários medíocres fazendo piadinhas e enchendo o peito para dizer “Vai mais votar em analfabeto”. Um nojo. Mas a imprensa está cumprindo seu papel, ora essa! Ela é a peça-chave, mantenedora do circo. A fonte do denuncismo.
Aí começam as dúvidas. Se Dirceu não tinha a tamanha culpa que a imprensa e o PSDB, prestes a ter um orgasmo, lhe atribui, o problema é sério, pois pende para um golpe de estado, um espetáculo do “viu como não ia dar certo”, um arranjo entre os poderosos da imprensa, de alguns políticos-coronéis, que nunca engoliram esse governo, embalados pelos interesses das multinacionais. Mas se o caso for o contrário, que o Dirceu daquele PT das bases sociais, dos líderes históricos, da esquerda, dos defensores da ética tenha vestido a camisa do time (ou corja) do planalto, do modo antigo de fazer política, aí a questão é mais séria ainda. Significa que toda aquela ideologia defendida loucamente por tantas pessoas que lutaram e sofreram acreditando na mudança, na verdade não passavam de um ideário ultrapassado de rebeldes sem causa.
Nem uma coisa, nem outra. O pior é que são as duas coisas juntas.Estava tudo dando certo demais. Era para desconfiar. Primeiro: o PT muda a cara. Fica sofisticado, a campanha presidencial se assemelha às campanhas de direita. Aquela cena de pegar criança no colo e tal. Vai ver foi isso que trouxe má sorte. Depois essa história das alianças com os “partidos das histórias mal contadas”. Não que o diálogo entre os partidos não deva existir, muito pelo contrário. Essa seria a grande evolução política. Mas não do jeito que é feito no Brasil, em que cada aliança significa uma rede de concessões e favoritismo. Aliança aqui é casamento. (E hoje estamos assistindo ao divórcio. No caso do PT, ao segundo porque ele já havia se divorciado das estâncias populares). Algumas alianças beiravam a incoerência. O PT virou moda. Quantos políticos filiaram-se ao Partido dos Trabalhadores porque sentiram a maré boa que ele estava vivendo? Políticos que tinham tudo para serem de direita, mas resolveram inovar.
Aí ocorre o fato mais estranho: Lula é eleito. Em um país, que há quinhentos anos foi governado pela direita (não só a direita partidária, mas o pensamento de direita, assistencialista, medíocre, coronelista, intransigente e todos esses adjetivos que lhe cabe) um representante popular ganha uma eleição com um apoio popular jamais visto. 52 milhões. Era realmente de desconfiar. Mas fomos levados pela emoção, pela “esperança que vencia o medo” e pela confiança na historicidade dos políticos que subiam para o planalto junto com o Luiz.
Depois começaram a pipocar os fatos contraditórios. O governo mexe pouco na política econômica em sinal de aceitação à muitas medidas que antes eram condenadas. O posicionamento da base governista começa a se tornar, digamos, indefinido. Como no caso das reformas, trabalhista e universitária, com cláusulas que iam brutalmente de encontro às idéias defendidas anteriormente. A ministra Marina Silva que o diga.
Até que a crise vem à tona. Um deputado que fazia parte de um esquema de corrupção resolve abrir o coração. De repente uma denúncia de impunidade da empresa, ainda estatal, dos Correios. De repente vários parlamentares abandonam seus cargos, deixando claro suas parcelas de culpa. De repente a direita de ACM, de PC, de Luiz Estevão, de FHC coloca o dedo no nariz de parlamentares da esquerda, se mostrando estupefatos com tamanho desrespeito ao povo. E de repente, não mais que de repente, o Palocci, eterno defensor do “deixa como está pra ver como fica”, faz um discurso neoliberal e é elogiado por todo mundo. De repente José Dirceu sai fora. Tudo um ano antes da eleição de 2006, na qual provavelmente Lula lançaria sua candidatura. Golpe de estado ou teoria da conspiração?
Com todo mundo suspeito não dá pra se posicionar. E é assim que a sociedade brasileira está. Embrulha o estômago com tanta porcariada. Mas fica cabreira com as coincidências. Defende Lula, “uma pessoa do povo”. Depois muda de idéia. “Ninguém presta”, constatam. Desacreditam. Não se pode nunca cair naquela generalização imbecil e desconsiderar políticos sérios, honestos espalhados em vários partidos. Mas que há uma descrença enorme no fazer político, isso é inegável.
E quem são os culpados? Um parlamento é composto por partidos. Esses, por sua vez, são constituídos por políticos que às vezes são pessoas. Em algum momento essas pessoas falharam, cederam, mentiram e roubaram. O governo, por exemplo, cometeu o grave erro de manter o mesmo modelo neoliberal da dupla Collor e FHC. E quem financia toda essa crise são todos aqueles interessados nos benefícios que ela trará. Eureka! Banqueiros, empresas multinacionais e exportadores. Os políticos só obedecem.
Foi-se o tempo em que ser o PT significava alguma coisa. E ser do PMDB significava coisa alguma. Aí vem Heloísa Helena com seu novo partido de salvação, na Hebe. È o cúmulo! A crise além de partidária é sistemática e global. Esse redevau no Brasil é só um leve sintoma do grave mal que é ter uma elite no poder. Ela nunca saiu de lá. Essa é questão. Essa elite continua mandando e desmandando, (e agora também denunciando e apontando o dedo), tornando o espaço público uma extensão do privado e a gestão da coisa pública como bazar de favores, parafraseando José Arbex Jr. Isso pra dizer que a grande questão está na mentalidade. Não adianta se portar como esquerda se as atitudes são direitíssimas. Sinal que não houve uma “revolução” interna. Sinal que a mentalidade da elite neoliberal brasileira ainda reina soberana. Péssimo sinal.

Apoio pedagógico: Caros amigos