terça-feira, dezembro 06, 2005

Continuo em crise




Horário do Jornal Nacional. Preguiçosamente estou em frente à Tv assistindo ao jornal mais babaca da televisão. Especificamente à reportagem sobre a saída de Dirceu. Perplexa, sem saber mais o que pensar, criando minhas teorias de conspiração. O que está acontecendo com a política no Brasil? Está cada vez mais insuportável assistir à televisão desde do início da crise (que na verdade sempre existiu, de tempo em tempos supita e a cada episódio... novos panos quentes). A ênfase que está sendo dada a essa CPI beira a obsessão. Onde quer que vá, qualquer assunto que começa termina com o mensalão. Aqueles militares aposentados, aqueles funcionários medíocres fazendo piadinhas e enchendo o peito para dizer “Vai mais votar em analfabeto”. Um nojo. Mas a imprensa está cumprindo seu papel, ora essa! Ela é a peça-chave, mantenedora do circo. A fonte do denuncismo.
Aí começam as dúvidas. Se Dirceu não tinha a tamanha culpa que a imprensa e o PSDB, prestes a ter um orgasmo, lhe atribui, o problema é sério, pois pende para um golpe de estado, um espetáculo do “viu como não ia dar certo”, um arranjo entre os poderosos da imprensa, de alguns políticos-coronéis, que nunca engoliram esse governo, embalados pelos interesses das multinacionais. Mas se o caso for o contrário, que o Dirceu daquele PT das bases sociais, dos líderes históricos, da esquerda, dos defensores da ética tenha vestido a camisa do time (ou corja) do planalto, do modo antigo de fazer política, aí a questão é mais séria ainda. Significa que toda aquela ideologia defendida loucamente por tantas pessoas que lutaram e sofreram acreditando na mudança, na verdade não passavam de um ideário ultrapassado de rebeldes sem causa.
Nem uma coisa, nem outra. O pior é que são as duas coisas juntas.Estava tudo dando certo demais. Era para desconfiar. Primeiro: o PT muda a cara. Fica sofisticado, a campanha presidencial se assemelha às campanhas de direita. Aquela cena de pegar criança no colo e tal. Vai ver foi isso que trouxe má sorte. Depois essa história das alianças com os “partidos das histórias mal contadas”. Não que o diálogo entre os partidos não deva existir, muito pelo contrário. Essa seria a grande evolução política. Mas não do jeito que é feito no Brasil, em que cada aliança significa uma rede de concessões e favoritismo. Aliança aqui é casamento. (E hoje estamos assistindo ao divórcio. No caso do PT, ao segundo porque ele já havia se divorciado das estâncias populares). Algumas alianças beiravam a incoerência. O PT virou moda. Quantos políticos filiaram-se ao Partido dos Trabalhadores porque sentiram a maré boa que ele estava vivendo? Políticos que tinham tudo para serem de direita, mas resolveram inovar.
Aí ocorre o fato mais estranho: Lula é eleito. Em um país, que há quinhentos anos foi governado pela direita (não só a direita partidária, mas o pensamento de direita, assistencialista, medíocre, coronelista, intransigente e todos esses adjetivos que lhe cabe) um representante popular ganha uma eleição com um apoio popular jamais visto. 52 milhões. Era realmente de desconfiar. Mas fomos levados pela emoção, pela “esperança que vencia o medo” e pela confiança na historicidade dos políticos que subiam para o planalto junto com o Luiz.
Depois começaram a pipocar os fatos contraditórios. O governo mexe pouco na política econômica em sinal de aceitação à muitas medidas que antes eram condenadas. O posicionamento da base governista começa a se tornar, digamos, indefinido. Como no caso das reformas, trabalhista e universitária, com cláusulas que iam brutalmente de encontro às idéias defendidas anteriormente. A ministra Marina Silva que o diga.
Até que a crise vem à tona. Um deputado que fazia parte de um esquema de corrupção resolve abrir o coração. De repente uma denúncia de impunidade da empresa, ainda estatal, dos Correios. De repente vários parlamentares abandonam seus cargos, deixando claro suas parcelas de culpa. De repente a direita de ACM, de PC, de Luiz Estevão, de FHC coloca o dedo no nariz de parlamentares da esquerda, se mostrando estupefatos com tamanho desrespeito ao povo. E de repente, não mais que de repente, o Palocci, eterno defensor do “deixa como está pra ver como fica”, faz um discurso neoliberal e é elogiado por todo mundo. De repente José Dirceu sai fora. Tudo um ano antes da eleição de 2006, na qual provavelmente Lula lançaria sua candidatura. Golpe de estado ou teoria da conspiração?
Com todo mundo suspeito não dá pra se posicionar. E é assim que a sociedade brasileira está. Embrulha o estômago com tanta porcariada. Mas fica cabreira com as coincidências. Defende Lula, “uma pessoa do povo”. Depois muda de idéia. “Ninguém presta”, constatam. Desacreditam. Não se pode nunca cair naquela generalização imbecil e desconsiderar políticos sérios, honestos espalhados em vários partidos. Mas que há uma descrença enorme no fazer político, isso é inegável.
E quem são os culpados? Um parlamento é composto por partidos. Esses, por sua vez, são constituídos por políticos que às vezes são pessoas. Em algum momento essas pessoas falharam, cederam, mentiram e roubaram. O governo, por exemplo, cometeu o grave erro de manter o mesmo modelo neoliberal da dupla Collor e FHC. E quem financia toda essa crise são todos aqueles interessados nos benefícios que ela trará. Eureka! Banqueiros, empresas multinacionais e exportadores. Os políticos só obedecem.
Foi-se o tempo em que ser o PT significava alguma coisa. E ser do PMDB significava coisa alguma. Aí vem Heloísa Helena com seu novo partido de salvação, na Hebe. È o cúmulo! A crise além de partidária é sistemática e global. Esse redevau no Brasil é só um leve sintoma do grave mal que é ter uma elite no poder. Ela nunca saiu de lá. Essa é questão. Essa elite continua mandando e desmandando, (e agora também denunciando e apontando o dedo), tornando o espaço público uma extensão do privado e a gestão da coisa pública como bazar de favores, parafraseando José Arbex Jr. Isso pra dizer que a grande questão está na mentalidade. Não adianta se portar como esquerda se as atitudes são direitíssimas. Sinal que não houve uma “revolução” interna. Sinal que a mentalidade da elite neoliberal brasileira ainda reina soberana. Péssimo sinal.

Apoio pedagógico: Caros amigos

Nenhum comentário: