segunda-feira, outubro 30, 2006

Introspecção, primeiro sintoma


Quanto mais me atenho a própria vida que carrego, mais pesada fica. Agora dei para descobrir certas imperfeições insuportáveis, a acordar suspensa de tudo, assistir à minha própria história e ainda tecer comentários.
Outro dia, madrugada, escuro como o quê, eu acordo subitamente, com uma sensação estranha como se estivesse personificada na dúvida mais antiga do ser humano. Que porra eu tô fazendo nesse mundo? E não era uma duvidazinha, uma suspeita, um devaneio. Era a nítida angústia de querer saber o quê faço eu aqui.
Não acho que seja loucura porque os loucos não pensam sobre seu próprio estado de insanidade. Mas se for degenerativo este meu estado, aí lascou-se. Se passo horas dedicadas ao que me cerca, suspeito que esteja perdendo coisas interessantes fora daqui, desse universo particular.

Flashs podem cegar


Começo esse texto desculpando-me por os bons artistas e produtores dessa cidade. Pena que nem todos o são. E por uma incapacidade ou teimosia besta de não exercer a humildade. Por acaso não somos todos nós vítimas das mesmas censuras, limites, suscetíveis aos mesmos erros e sujeitos a viver de uma mendicância por vezes inevitável. Isso é um problema existencial, das nossas duras semelhanças, e não será uma foto no jornal que isentará uns poucos de um destino comum. Sei se que o que presencio nessa cidade não incide apenas aqui. Não sei se está relacionado ao modo “caseiro” e apadrinhado de fazer as coisas, medido pelo grau de intimidade que se tem com as pessoas e ao poder que elas exercem, mas arte não se faz em palanques. Não se conquista público com frieza e algumas cortesias. Não há troca com outros artistas quando não se dão ao trabalho de saber se vão cantar rock ou dançar tango. Não se cria vínculo quando a distância entre espectador e artista é descomunal. Mas foi indicado! Este é irmão de fulano! Tal filme é daquele cara! Fala que está esgotado! Ela conhece o prefeito! Ciclano é na primeira fila! E assim vão se consolidando uma trupe de especialistas em nada, profissionais de extrema deselegância e artistas carimbados. Sorte que a arte é desregrada e permite que tantos, muitos e inexplicáveis talentos se apossem das pessoas. E haverá sempre aquelas que não se intimidam em perguntar de quem é aquele quadro tão famoso, em dizer que não assistiu ao filme, em assumir que leu o livro pela metade ou que vendeu uma obra clássica por desconhecer seu valor. Existem aquelas pessoas que trabalham às vezes de maneira quase invisível, por não se iludirem com holofotes e aplausos, considerando o ser humano mais que a essa parafernália toda.


sexta-feira, outubro 27, 2006

notas em gotas

música é um santo remédio. logo ontem que eu estava a ponto de esbaforir, pus um Chicão cantando no meu quarto e acabou o dilema. você vai me seguir, pra onde quer que eu vá. e eu fui mesmo. depois estou no boteco e, de repente, vem aquelas notas inconfundíveis do buena vista. dancei bailes escutando aquilo. e hoje, caí da cama com um músico pra lá de incrível. meu deus! que pessoa apaixonante, falando, batucando, rindo, porque tudo nele é música. foi então que eu decidi: quero ser enterrada com um radinho de pilha (e haja pilha!)que toque minha trilha sonora eternidade afora.
recomendo: escutem maria bethania cantando Sussuarana. escutem e nunca mais perca a melodia. vá ao show de rock mais próximo de sua casa e se voltar como antes, nós garantimos a devolução do seu dindin!

terça-feira, outubro 17, 2006

Depois que a chuva cessa,
ficam as cores úmidas
vivas, como se a chuva tivesse lavado meus olhos

Ou como se Deus tivesse molhado a ponta do pincel.

e penso tanto nas coisas líquidas
na bebida deslizando a garganta
nas lágrimas percorrendo o rosto
mar, chuva, língua
águas mornas do gozo

segunda-feira, outubro 16, 2006

sessão cartas

Bem, pai, nunca te mostrei isso aqui e nem outras coisas porque sei que você tem um senso crítico aguçado e ia ficar pondo defeito. Mas hoje, além de um monte de pequenas “verdades”, aprendi que ser criticada tem suas vantagens. Somos tão parecidos que acabo concluindo que te imitei numa porção de coisas. No gosto pela música, sentar, escutar, ler o encarte e depois cantar no banheiro como se estivéssemos numa audição. O gosto pelos livros, esse negócio de se admirar com o universo do outros. As pequenas irritações. Você ficava bravo com besteira, gritava, falava coisas fortes, tudo para depois ter o trabalho de pedir desculpas (mas olha que eu já melhorei muito. Ainda bem que tem a mamãe pra fazer um contra peso!).

E junto com essas coisas que eu imitei, vieram outras. O modo de ver o mundo, as pessoas, as paixões. Sua ganância pelos pequenos prazeres, os vícios ... a boemia. Sei que se te perguntarem “valeu a pena?”, você com saudade nos olhos vai dizer que não. Mas não se preocupe. Acho que eu tenho um pouco mais de juízo, até porque esse lance de ser mulher cerceia certas vontades. (Sempre imaginei seu sofrimento em ter três mulheres em casa. Que desespero não deve ter dado nosso primeiro batom, o colo descoberto, a maquiagem forte! Pois é, tanto somos solidárias a esse seu sofrimento que quando alguém entra em nossa vida, sempre perguntamos se ele cabe aí em casa).

Sua indignação com as coisas da vida também foi herdada incorrigivelmente. Acho graça quando você nos repreende pedindo cautela. Deixa a gente esganiçar, fazer alvoroço, brigar na rua. É o tempo disso, pai! Você perdeu algumas coisas que eu admirava e até entendo que depois das decepções e angústias a gente quer é calmaria, mas abstraia, sublime. A vida é uma porcaria sem isso. Não sei o que você esperava de mim, talvez eu tenha passado bem longe do seu projeto, mas sei que você tem orgulho, assim como eu, exageradamente, tenho de você.

Amo, muito, sempre

beijos da sua catoquinha bujuda

carta escrita (e não enviada) por ocasião do aniversário do papai


quinta-feira, outubro 05, 2006

Dali em diante


lendo carpinejar pela primeira vez, escrevia sobre as desventuras de seu primeiro beijo. o dela aconteceu num quartinho de bagunça, na casa de um colega de escola. não se gostavam. era perdida de paixão por outro, daquelas paixões escondidas, sem recíproca. gostava mais do sentimento do que dele. mas um dia cansou e, levada pela curiosidade, deixou o platonismo de lado. seu primeiro beijo tem a sensação da "quase barba" e do hálito de halls de morango, fresco, doce. quando saíram daquele cômodo, ele sentou-se com os amigos para relatar o acontecido. isso a deixou ressentida, mas não sofreu. chamou o pai e foi embora. já tinha perdido a graça. agora, passados tantos anos, parece ainda esperar o beijo em que o depois não venha.