Bem, pai, nunca te mostrei isso aqui e nem outras coisas porque sei que você tem um senso crítico aguçado e ia ficar pondo defeito. Mas hoje, além de um monte de pequenas “verdades”, aprendi que ser criticada tem suas vantagens. Somos tão parecidos que acabo concluindo que te imitei numa porção de coisas. No gosto pela música, sentar, escutar, ler o encarte e depois cantar no banheiro como se estivéssemos numa audição. O gosto pelos livros, esse negócio de se admirar com o universo do outros. As pequenas irritações. Você ficava bravo com besteira, gritava, falava coisas fortes, tudo para depois ter o trabalho de pedir desculpas (mas olha que eu já melhorei muito. Ainda bem que tem a mamãe pra fazer um contra peso!).
E junto com essas coisas que eu imitei, vieram outras. O modo de ver o mundo, as pessoas, as paixões. Sua ganância pelos pequenos prazeres, os vícios ... a boemia. Sei que se te perguntarem “valeu a pena?”, você com saudade nos olhos vai dizer que não. Mas não se preocupe. Acho que eu tenho um pouco mais de juízo, até porque esse lance de ser mulher cerceia certas vontades. (Sempre imaginei seu sofrimento em ter três mulheres em casa. Que desespero não deve ter dado nosso primeiro batom, o colo descoberto, a maquiagem forte! Pois é, tanto somos solidárias a esse seu sofrimento que quando alguém entra em nossa vida, sempre perguntamos se ele cabe aí em casa).
Sua indignação com as coisas da vida também foi herdada incorrigivelmente. Acho graça quando você nos repreende pedindo cautela. Deixa a gente esganiçar, fazer alvoroço, brigar na rua. É o tempo disso, pai! Você perdeu algumas coisas que eu admirava e até entendo que depois das decepções e angústias a gente quer é calmaria, mas abstraia, sublime. A vida é uma porcaria sem isso. Não sei o que você esperava de mim, talvez eu tenha passado bem longe do seu projeto, mas sei que você tem orgulho, assim como eu, exageradamente, tenho de você.
E junto com essas coisas que eu imitei, vieram outras. O modo de ver o mundo, as pessoas, as paixões. Sua ganância pelos pequenos prazeres, os vícios ... a boemia. Sei que se te perguntarem “valeu a pena?”, você com saudade nos olhos vai dizer que não. Mas não se preocupe. Acho que eu tenho um pouco mais de juízo, até porque esse lance de ser mulher cerceia certas vontades. (Sempre imaginei seu sofrimento em ter três mulheres em casa. Que desespero não deve ter dado nosso primeiro batom, o colo descoberto, a maquiagem forte! Pois é, tanto somos solidárias a esse seu sofrimento que quando alguém entra em nossa vida, sempre perguntamos se ele cabe aí em casa).
Sua indignação com as coisas da vida também foi herdada incorrigivelmente. Acho graça quando você nos repreende pedindo cautela. Deixa a gente esganiçar, fazer alvoroço, brigar na rua. É o tempo disso, pai! Você perdeu algumas coisas que eu admirava e até entendo que depois das decepções e angústias a gente quer é calmaria, mas abstraia, sublime. A vida é uma porcaria sem isso. Não sei o que você esperava de mim, talvez eu tenha passado bem longe do seu projeto, mas sei que você tem orgulho, assim como eu, exageradamente, tenho de você.
Amo, muito, sempre
beijos da sua catoquinha bujuda
carta escrita (e não enviada) por ocasião do aniversário do papai

2 comentários:
Ah Lorena, você conseguiu tratar desse assunto tão delicado que é a relação de filha e pai de maneira mais delicada ainda, e eu que também sou filha confesso que fiquei com um nó na garganta...
ô Juliana, que bom que vc tenha lido isso, porque somente quem vive essa relação pai e filha sabe a dor e a delícia que está por traz!
Postar um comentário