quinta-feira, agosto 31, 2006

No divã eu não sento

É, voltei pra análise. Nada em especial. Só queria poupar os amigos dos meus dramas. Eles não merecem. Chego. Ele tem nome de cantor mas parece dançarino. No divã eu não sento. Começo dizendo que não gosto de falar disso e nisso eu fico até acabar. Pra falar a verdade eu tô emputecida, farta, exausta de viver histórias que não são minhas, dores que eu não provoquei, sabe?! Fico esperando alguém fazer ao menos um versinho e enquanto isso leio um livro de 159 pág dedicado à uma musa. Ninguém acha injusto?! Explico o que eu acho confuso: é falta de equilíbrio, não é questão de ser duradouro. Acaba o tempo. Saio conversando sozinha e prometendo um monte de coisa. Depois descumpro tudo e invento um monte de histórias de Nelson Rodrigues. Alguém me livre de ser tão dramática*. Pior é que não consegui livrar meus amigos de mim.
* Peguei emprestada de uma grande poetisa

quarta-feira, agosto 30, 2006

Vale queimar o sutiã?

Novamente as eleições. Eu já tinha prometido ficar de férias desse assunto, porque sofro com tanta insanidade, mas de tanto fugir é que dei de cara. E a tal da política envolve mesmo. Você toma partido, você se ofende com os comentários no ônibus, começa a discutir no supermercado e por aí vai! E percebo que a descrença tornou-se domínio público. Ninguém tem saco pra esse formato antigo de política. E não é por pouco.
Outro dia havia um engarrafamento em horário de pico, as pessoas voltando do trabalho num ônibus lotado e tudo porque o Alcides estava fazendo panfletaço na rua. Puta merda! Isso é um atentado! . As pessoas sabem que o ato de votar perdeu muito do seu significado. Hoje, conversando com uma senhora no ônibus, ela disse duas coisas ótimas: "Eu acho engraçado que eles (sujeito indeterminado) falam pra escolher certo, não desperdiçar o voto. Mas me diz quem acerta? Porque a gente vota tentando acertar, mas nunca dá certo (como numa loteria). Se pudesse votava nulo pros político vê que a gente não quer eles lá!" Invejei seu discernimento! Pena que o povo também é corrupto. Sim, porque se o candidato vende, é porque alguém compra.

Quem jornaliza nessa época, vê cada uma. No debate realizado na TV, os candidatos quase se estapeando no ar e depois riam e batiam um bom papo de amigos nos intervalos. Teatrinho mais chinfrinha! Sem falar das tretas. Os jornalistas também dão vexame. Cada pergunta mais descabida e tendenciosa, que convenhamos, faltam pregar o adesivo da coligação para entrevistar os caras! Sejamos discretos, já que éticos....

Agora, uma coisa que eu tenho pensado seriamente é poupar os políticos que ainda não se rebaixaram ao nível da mesquinharia. Temo muito em colocar esses distintos senhores na "máquina mortífera" que é (ou está) o nosso sistema plítico, uma estrutura engessada e corrompedora. Porque eu tenho certeza que a Heloíza Helena, com toda a coerência que ela afirma ter, (não estou usando-a como exemplo de exímio político) não resistiria à tantas negociações com bancos, multinacionais, empresários, latifundiários e afins. O Cristovam saiu do governo Lula pensando em fazer política à sua maneira. E tem feito, mas já dizia Frei Beto, governar não é ter poder. Os outros eu não sei distinguir bem até onde é PCdoB e até onde é PFL. Então por quê estragar a vida de um cidadão politicamente correto com um mandato, né não?!

terça-feira, agosto 29, 2006

Coisa Feita

Sussuarana
(música cantada por maria bethânia em brasileirinho)

Faz três sumana, que na Festa de Santana
O Zezé Sussuarana me chamou pra conversar.
Dessa bocada, nóis partimo pela estrada
Ninguém num dizia nada.Fumo andando devagar.
A noite veio, o caminho tava em meio
Eu tive aquele arreceio que alguém nos pudesse ver.
Eu quis dizer: "Sussuarana, vamo embora"
Mas, por Deus, Nossa Senhora, cadê boca pra dizer?
Mais adiante, do mundo já bem distante
Nóis paramo um instante, prendemo a respiração.
Envergonhado, ele partiu para o meu lado
Oh, Virge dos meu pecado, me dê absolvição.
Foi coisa feita, foi mandinga, foi maleita
Que nunca mais endireita, que nos botaro, é capaiz.
Sussuarana, meu coração não me engana
Vai fazer cinco sumana. Tu não volta nunca mais!

E vem a imagem de Riobaldo tomado de amor pela Diadorim, um amor que quase que dava pra pegar de tão latente e ele naquela luta infernal pra sufocar, esconder, represar ... E vem a penúria de Tita em Como água para chocolate. Vem junto as histórias das paixões "erradas", da mulher que se casou amando outro, a imagem do homem que se deitava com a irmã de sua esposa no quarto ao lado, o desatino da moça que se deixou seduzir por um camarada da cidade e escondeu a barriga os nove meses. Fico com imagem do silêncio, o desejo saltando aos olhos, fixos, a respiração desatinada, o corpo sem prumo, se roçando, o beijo desajeitado começando aquela dança ainda desconhecida, o remorço de depois, o desajeito, o medo do pecado... Quantos se amaram assim? Nessa pureza sem moral, em que qualquer amor já é um desanso para loucura!

segunda-feira, agosto 28, 2006

sessão cartas

Bem, c(r)aros visitantes, desculpe envolvê-los nas minhas tramóias, mas essa sessão é muito importante, já que perdeu-se por aí o costume de escrever cartas. E como precisamos delas....
eh...

Você vai demorar pra ler isso, eu sei. Mas, também com tanto trabalho...Vamos começar por aí. Eu não estou me cabendo em contentamento com esse seu emprego. Tá vendo que crescer não é tão doloroso?! Você tá de novo com aquele brilho no olho, aquela sensação de ter se encontrado na esquina (acrescente aí o gesto da vizinha da família Ramos) e isso me descansa muito, porque eu me preocupo, eu sofro, rs.
A viagem pra Índia, pra África, pra China Comunista?! Pode marcar. E isso é sério. Chega desse círculo de pobreza. Chega de contentar com pouco, chegaaaaa!!!! Eu vou ter que juntar mais uma graninha, mas vai dar!
Nossos anos de trama me fez inquietar com o mundo, me fez chorar com a dor dos outros, me fez ser uma pessoa que desejei por muito tempo ser e entre gatos e gente ....eu fico com a gente. E isso é importante que você saiba, porque é muito grandioso imaginar como podemos incrementar a vida alheia. E temos cada vez mais a oferecer! Uma pena que nem todo mundo saiba usufruir disso, rs! Quanto a esse assunto, volto ao estágio de contentamento múltiplo se é que você me entende?! Minha ego trip cada dia mais me convence que o patrimônio da humanidade sou eu, rs! Um dia procuro o sossego.
Não posso deixar de dizer que sinto muita saudade de pegar a estrada com você, do café que demorava horrores e do colo quando o nosso "mundinho" desabava. Ai, ai! Sem sentimentalismo! Ainda bem que você veio. Ainda bem que você me entende. Ainda bem. Porque é como se você não tivesse ido.
Não precisa nem dizer o quanto eu amo, e amo demais...
Me leva que tô chegando já!!!!
Ah, grava o filme das crianças logo e me empresta o Terça Insana quando voltar, viu?!

terça-feira, agosto 22, 2006

o fato é que se pudesse, andava sempre com os olhos cobertos porque eles me escancaram demais. e porque o mundo visto com meus óculos parece estar sempre entardecendo mais cedo. não vejo tão nítido o sofrimento das pessoas, a pobreza em volta, as mães com aquelas roupas de feiras e as crianças olhando para mim como quem diz: você sabe que eu não tenho futuro. ai credo. não vejo tão bem aquelas feridas que alguns expõem para recolher dinheiro, não vejo os alcóolatras as seis da manhã entupidos de cachaça. não vejo os rastros de mijo do terminal. não vejo. então, vou adiando meus planos de fazer alguma coisa. acho que também estou entardecendo.

sexta-feira, agosto 18, 2006

dicas de beleza

os politicamente corretos são irresistíveis. aqueles que devolvem o troco vindo a mais ou que seguram o lixinho na mão, aqueles que dão o lugar no ônibus, que não furam fila, os que brigam sem arrogância, que não são de muita mutreta, ah, estes me deixam de quatro pro ato, com o perdão da posição. eu me delicio observando seus gestos de gentileza. sem serem certos, são sutis à sua maneira. xingam um bom palavrão por algum motivo qualquer e no instante seguinte soltam um gracioso muito obrigado para a balconista. é de seduzir qualquer uma.

terça-feira, agosto 15, 2006

o que sobrou...

Goiânia – Salvador. Retirantes no sentido contrário na caranga branca do Tio Ari. Seriam estudantes indo para um Encontro de Comunicação, não fosse o espírito “viagem com a galera da facu”. A intenção faz toda a diferença. Mas fomos. Um grupinho um tanto quanto heterogêneo, abarcando desde alguns supostos jornalistas até uma trupe de calouras que vamos combinar. Esquece. Logo na ida, a desarmonia musical já causou algumas divergências. Confesso que meu ouvido não é capaz de aturar “fuca na butuca” nem no pior estado de embriaguez. Mas, entrou na chuva... E como se não bastasse, as pessoas com um pouco mais de senso não levaram música suficiente para as vinte e oito horas de chão. Dá-lhe Ray Charles e Jack Johnson. Sobrevivemos e por fim, chegamos à universidade, situada a menos de cem metros da praia. Fomos assistir ao nascer do sol em cima de uma pedra da Barra. Depois desse episódio comecei a ser outra pessoa. E já no primeiro dia do evento, a organização facilitou nossa desistência. Então nos restou o duro ofício de conhecer o que a Bahia ainda tem.

Nesse tipo de viagem alguns momentos fazem valer a pena todo sacrifício. Valem a penúria da convivência em grupo (pelo bem coletivo e pelo mal próprio). Valem o constrangimento da intimidade forçada, do banho quase unisex, os roncos, valem a vontade de mijar ao menos um dia sentada e defecar em algum lugar que não pareça banheiro químico. Valem aquela fila de restaurante popular na hora do almoço, valem tomar um café que mais parece feijão servido com batata doce.

São momentos que compensam tudo, como encarar aquela imensidão desconcertante que é o mar, olhar seu encontro com o céu e não saber nem pensar nada. Momentos como topar com uma batucada baiana nas ruas do Pelourinho, ver de perto aquelas mãos que tocam o repique e o timbau num prazer que o corpo quer a qualquer custo e daí, não conseguir recusar os passos. Entrar por acaso num espaço dançante e testemunhar um bolero tocado ao vivo para os senhores e senhoras se acabarem de dançar. Melhor ainda: estar só com mais três amigos...ê sorte! Experimentar aquelas doses de pingas exóticas e afrodisíacas. Andar pelas ruas à toinha, e achar um café todo charmoso com uma decoração cabulosa e um capuccino baratinho. Momentos de conversas, de restauração de amizade que havia se tornado rotina.

Embora o Elevador Lacerda tenha decepcionado um pouco, o episódio do Gatorade foi impagável. É que nosso companheiro não sabia que os pedintes de Salvador têm uma maneira educada de pedir as coisas. “Me dá um gole, tio?” fica melhor que pedir logo tudo. Mas nosso companheiro levou a sério a sutileza do menino. Entregou a garrafa, esperando só o gole. Tinha acabado de comprar. O menino pegou a garrafa, virou as costas e saiu tomando de glut glut, enquanto a gente assistia a cena, vendo nosso amigo esperando não sei o quê, com uma cara de mané passado para trás por um moleque de pouco mais de 1m.

Alguns não viram. Ainda bem. Sorte minha e dos quatro seres chapados que estavam comigo. Bebi tanto que encontrei até cabimento em dar uma estrela de vestido, no meio da chuva, na pista de dança. Realiza a cena desta pessoa neste gesto olímpico. É, eu também não consegui.

Outro momento memorável foi nosso desabafo coletivo no Bar do Paredão. Haja saco para aturar certas coisas. Quem não estava ou não ficou até o final pode se preocupar, porque com certeza seu nome entrou na roda das línguas felinas. Fizemos uma espécie de Big Brother de verão e colocamos na mesa quem nós achávamos que eram dispensáveis no coletivo, seja pela falta de interação, seja pelo excesso de participação. Incrível eram os argumentos e a capacidade que temos de dissimular o que pensamos das pessoas. Também não foi só veneno, fizemos elogios às pessoas que mereciam.

Afinal, nessas viagens, a presença de algumas pessoas é de suma importância. Não teria a mesma graça sem a presença espontânea de Zetinha, o terror dos moradores de Salvador. Ela tornou os ônibus coletivos um verdadeiro trio elétrico com batuque e tudo. Imagine você entrar no buzão, numa bruta segunda feira, depois do expediente e deparar com um singelo grupo de trinta pessoas cantando e dançando Tchaco, eu tô em cima eu tô em baixo, Piririm pom pom, piririm pom pom é Goiás no Enecom. Ou viajar ao lado de um fanho que vai cantando a musiquinha da pamonha vai pamonha, vai cural. É no mínimo engraçado. Melhor que isso só pegar um taxista que, para lá de meia noite, arruma ânimo para curtir um mambo em ritmo de batuque. E enquanto o som do carro mandava ver no volare, ôô, cantare, ôôôô o motorista se divertia no zigue zague e nas ultrapassagens. Atrás, outro grupo viajava ao som do badalo do negão. Deu até para criar um filme erótico de Emanuelle em Salvador com o título: Emanuelle e o badalo do negão. Criação do João, outra pessoa que tem umas tiradas muito bem vindas. A da fotografia foi a melhor. Não vou citar um por um, mas valeu aqueles que fizeram essa saga de retirantes compensar. Ah, não podia esquecer do protesto final no buzão. A gente queria de verdade ver o oco, mas teve gente que não entendeu. De qualquer modo, valeu, minha galera!!!