Eram amigos há uns cinco anos.
- Seis – disse ele conferindo as meias para colocar na mala.
- Não, essa de listrinha deixa aí!
- Melhor deixar essa preta horrível. Meinha feia!
Conheceram-se num boteco por causa de uns amigos em comum que faziam faculdade. Ela era do Design e tinha conseguido um trabalho em Belo Horizonte. Não tinha muitos amigos, não era de muita conversa, mas por algum motivo, simpatizaram-se. Folgado como era, no primeiro dia pediu cama na quitinete em que ela morava e daí por diante virou rotina. Não eram de ficar muito junto. Mesmo assim a intimidade veio, a invasão de privacidade, as brigas, as histórias. Ele, um introspectivo sem jeito com mulheres. Chegou a morar com uma ex-namorada, mas não duraram quarenta dias. Ela tinha pena. Não tinha coragem de dizer que a namorada era uma burguesinha chegada a umas experiências sexuais múltiplas. Soube por uma amiga que fotografou a fulana. Terminaram quando ela encucou em fazer um filme sem roupa.
- Se ela fosse atriz, porra! – justificava
- É foda!
Conselhos não eram o seu forte, mas ouvia sem reclamar as lamúrias dos outros. Por isso seus relacionamentos eram problemáticos. Ouvia tanto que se tornava amiga demais. Uma vez encheu o saco e disse pro namorado:
- Você quer ombro, é? - e deu-lhe com o ombro na cara.
Depois ria sozinha do episódio.
Quando disse que ia embora, ele achou bom, torcia pra ela ter um emprego, se dar bem e ter uma grana razoável. Depois ficou sentido, começou a olhar com distância a situação. Veio uma nostalgia das festas, dos porres, da camisola, do café que ela fazia. Sentiu-se ridículo. Preferiu mesmo que ela fosse embora, para cessar aquela paranóia. Por fim ela foi. Não tocaram no assunto. Deu-lhe um CD de música com uma dessas frases batidas no encarte, “Sofro calado pra não te dizer, a cada segundo, o que é um segundo sem você”. Ela deixou a meia preta.
- Seis – disse ele conferindo as meias para colocar na mala.
- Não, essa de listrinha deixa aí!
- Melhor deixar essa preta horrível. Meinha feia!
Conheceram-se num boteco por causa de uns amigos em comum que faziam faculdade. Ela era do Design e tinha conseguido um trabalho em Belo Horizonte. Não tinha muitos amigos, não era de muita conversa, mas por algum motivo, simpatizaram-se. Folgado como era, no primeiro dia pediu cama na quitinete em que ela morava e daí por diante virou rotina. Não eram de ficar muito junto. Mesmo assim a intimidade veio, a invasão de privacidade, as brigas, as histórias. Ele, um introspectivo sem jeito com mulheres. Chegou a morar com uma ex-namorada, mas não duraram quarenta dias. Ela tinha pena. Não tinha coragem de dizer que a namorada era uma burguesinha chegada a umas experiências sexuais múltiplas. Soube por uma amiga que fotografou a fulana. Terminaram quando ela encucou em fazer um filme sem roupa.
- Se ela fosse atriz, porra! – justificava
- É foda!
Conselhos não eram o seu forte, mas ouvia sem reclamar as lamúrias dos outros. Por isso seus relacionamentos eram problemáticos. Ouvia tanto que se tornava amiga demais. Uma vez encheu o saco e disse pro namorado:
- Você quer ombro, é? - e deu-lhe com o ombro na cara.
Depois ria sozinha do episódio.
Quando disse que ia embora, ele achou bom, torcia pra ela ter um emprego, se dar bem e ter uma grana razoável. Depois ficou sentido, começou a olhar com distância a situação. Veio uma nostalgia das festas, dos porres, da camisola, do café que ela fazia. Sentiu-se ridículo. Preferiu mesmo que ela fosse embora, para cessar aquela paranóia. Por fim ela foi. Não tocaram no assunto. Deu-lhe um CD de música com uma dessas frases batidas no encarte, “Sofro calado pra não te dizer, a cada segundo, o que é um segundo sem você”. Ela deixou a meia preta.

2 comentários:
Lolita, ficções (reais?, ao que parece) caem bem em seu texto, moça.
Massa!
realidades alheias, Pedro! (mesmo porque a minha anda meio monótona, rs)
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