Era um dia de semana. De meio de semana. Estava saindo do trabalho e pensando no resto de dia que teria para repetir a rotina, almoçar, passar no banco, trabalhar, ir ao mercardo, buscar a noiva, agüentar os professores inconvenientes que provavelmente estariam com ela. Colocar filhos no mundo? Quase um crime!. Ela afirmava que não tinha relação com esse espírito de contenção de esperma da sua geração pessimista de letrados. Só queria estabilidade. Por ele, tanto fazia, porque seus sonhos já haviam sido jogados na roleta.
Mais uma vez aquela placa. Não iam tirar aquele out door dali? Que porcaria! A imagem era de um homem de terno, sério, tentando esconder uma tatuagem do braço que chegava até a mão. O slogan era uma espécie de aviso de que um dia você vai se soltar ou alguma coisa do tipo. Começou a implicar com essa plaqueta no dia que viu um desses programas de insônicos, sobre a tal obrigação de felicidade dos homens modernos. Uma desgraça!
Na esquina da rua 25, lembrou do livro que não devolveu semana passada e resolveu estacionar próximo ao prédio. A recepcionista, com a cara coberta de pó e a boca exibindo um batom violentamente vermelho, não percebe os olhos de desprezo lançado à ela. “Fulano, por favor”. “Pois, não. Seu nome?”. “Diz que tem um livro aqui na recepção para ele, tá bom?”. “Só um instante, ele está descendo”. Acabou cedendo ao convite do amigo para um café na cafeteria ao lado. Tinha sido reformada, e estava com mais cara de recinto em que pessoas passam para um lanche. Expresso com leite. As mesinhas eram pequenas, o que de certa forma era bom, pois impedia que terceiros requisitassem assento. Conversavam entusiasmados com um possível projeto cultural em parceria. Nada extraordinário, mas era trabalho e dinheiro extra.
No balcão, não percebia a atenção dada pela gerente. Os olhos apertados, fechavam ainda mais para enxergar aquele rosto, enquanto atendia aos outros clientes sem muita prestabilidade. Ele se levantou e foi pedir um cigarro. Pela voz teve certeza da pessoa que esperava. “Ainda fumando?”. Não a reconheceu. Ela, exercendo seu ritmo impaciente, logo revelou quem era. Sem grandes emoções, secos como eram, olharam admirados aquele reencontro. Era visível a surpresa do outro lado, depois de quase quinze anos sem nunca mais terem se visto, ver aquela figura em sua frente, mais corpulenta, o cabelo bem cortado, os olhos maquiados, roupas simples e atendendo num balcão. Riram.
Aos poucos foram entendendo o que cada um fazia ali. Ela tinha saído para estudar, morou fora uns doze anos e há três estava pulando de cidade em cidade com um companheiro para abrirem um Café. O projeto era um bistrô, mesmo porque ela não levava jeito com estabelecimentos e ficaria por conta da parte artística. Mas faltou uma grana e eles resolveram começar reformando aquele espaço. Ele tinha se formado, trabalhava numa empresa que elaborava projetos sociais e culturais para entidades, comprou um carro e tinha perdido o pai. O amigo desistiu de esperar e foi-se empora.
Passaram um bom tempo conversando, tentando desvendar a lacuna dos anos afastados, contando as histórias e provando os diferentes tipos de café. Depois seguiu sua rotina, numa tentativa esforçada de concentrar-se em outra coisa que não fosse aquele inusitado encontro. Nem percebeu que o out door estava sendo substituído.

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