terça-feira, dezembro 05, 2006

violação de domicílio

Nunca haviam amado tanto. Parecia um recipiente que, com um furo pequeno, derramava todo o líquido em segundos. Quando se encontravam, o clima retorcia, os olhos se travavam numa briga ferrenha, para, enfim, partirem para a esgrima de línguas, e mãos, e sexos. Perderam a compostura rapidamente. Deitados na cama, riam de tantas pequenas coisas e assim o mundo foi ficando do tamanho do quarto. Perdiam a hora, gastavam o que não tinham, arriscavam compromissos e tudo foi tornando-se incontrolável. Ele titubeou primeiro. Teve medo, quis faltar aos encontros, mas ela fez-se de inatingível. Isso vai acabar mesmo, um dia. Mas nas roupas foi ficando o perfume de todas as vezes que o sentimento esteve ali, entre os lençóis. Queriam voltar, mas já iam longe. Na primeira vez que não foi, sentiu até arrepios. Os cheiros vinham convulsivos, as imagens, a voz. Procurou o dia todo o que não estava ali. No outro dia estavam lá, cúmplices, secos de desejo. E cada vez que se afastavam, era quando mais estavam juntos. Até que começaram as perguntas, os raciocínios lógicos que hora ou outra entram onde não são bem vindos e depois de tantas discussões, o sentimento foi dissolvendo entre outros sentimentos. Cada encontro trazia o peso do dia em que iria acabar mesmo. Nunca se odiaram tanto.

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