segunda-feira, abril 14, 2008

“Símbolo da força de um país”


Ao entrar no espetáculo “Diário do Maldito”, do grupo brasiliense Teatro do Concreto, foi fácil me apreender pelo universo ali espetacularizado. Se envolver com os gritos, palavrões e líquidos que voavam pelo espaço. O que há no grotesco que nos atrai tanto? Aí está uma questão com múltiplas respostas e não serei eu a tentar decifrá-las. Mas posso especular que talvez faça parte da nossa intensa busca pelo que há de mais humano/sobrenatural na vida. Aquilo que nos é revelado cru, sem adornos, sem cortes ou higienização, sem o politicamente correto e o filtro intelectual (não digo que vez ou outra ele não surge) vem com uma autenticidade assustadora e confortável.

É visceral, é escatológico, fala-se de bunda, cu, merda, buceta e cuspe e toda a “porra” referente ao que Bakhtin chama de “baixo ventre”, tudo aquilo que é tão nosso como o ato de respirar, e por isso a identificação. Sim, porque mais humano que as rimas ricas são os “versos” podres de Bukowski, Pedro Juan Gutierrez, Augusto dos Anjos, Plínio Marcos.

E por falar no camarada, que puta história! Camelô, artista de circo, ator, escritor, poeta ... tinha que render mesmo um homem desse. Só quem de fato encara o povo, olho no olho, sem falsear, é capaz de dizer desse povo coisas tão incrivelmente duras e bonitas. Plínio Marcos só poderia ter escrito sua obra num país como esse aqui. Não é por acaso que os despossuídos são sempre tema de teatro, tv, cinema, literatura e o diabo. Pobreza vira arte porque a reinvenção e desconstrução de valores nesse universo é incrível demais para passar desapercebida.

E quando vemos no espetáculo aquele policial enfurecido, a mãe que sufoca o filho, a prostituta montada naquele salto de acrílico (esse figurino pra mim é sublime), a dona do buteco copo sujo e seus companheiros, aquele espaço da oficina .... entendemos que a força de um país como nosso só poderia estar nessa gente. O resto é sofisticado demais para caber nesse contexto.

Um comentário:

Pororoquinha disse...

Muito bom, amiga! Você se dá muito bem com as palavras...
Não é tão duro quanto eu pensei que fosse quando vc me contou, mas acho que é melhor assim!