Eu não sei bem por onde começar. Eu também não sei bem o que eu esperava dessa viagem para aldeia. Talvez uma cura miraculosa. Talvez um desvio de atenção. Confesso que agora estou um pouco deformada com tanto pensamento. O encantamento tem dessas coisas. Mas vamos ao que precisa ser dito. No meio do cerrado, imersos na areia seca e entre as árvores retorcidas, moram os índios krahô. Foi lá que fomos parar, com nossos entulhos e apetrechos de sobrevivência. Uma viagem longa, cruzando o Rio Tocantins e passando pelas estradas mais precárias. Do primeiro encontro, nada muito abrupto. Eles, já bem acostumados com a presença das branquelezas, nem estranham como nós. Falam nosso português, mas entre eles só a língua mãe, o que lhes permite falar o que quiserem sem que entendamos nada. Adotaram algumas manias nossas de relógio, energia, água encanada, banda Calypso e muita roupa (o que é uma pena, porque naquele calor, tudo que eu mais queria era me desnudar).
Vivem numa situação de miséria (segundo nossa concepção), pouco plantio, muitas bocas. São reféns de um assistencialismo típico da piedade colonialista e já comungam das relações de troca dos homens “civilizados”. Isso, claro, teceu um nó gigantesco em nossa cabeça, porque queríamos de uma forma ou de outra os índios dos nossos livros. Queríamos que eles não soubessem das coisas, queríamos a ingenuidade, a vida simples, porque nutrimos uma espécie de nostalgia do primitivo (e quer primitivismo maior que a fome?). Eis, então, a primeira decepção, que veio acompanhada de um sentimento de culpa por achar que interferimos na cultura deles. Mas a interferência não acontece a todo instante? Cultura não é essa coisa louca, dinâmica e antropofágica, que deglute costumes, hábitos, idéias e vai agregando experiências? Não vou entrar nessa questão, porque só tenho formulações. Muitas coisas mudaram. Outras permanecem. Na língua, nos cantos, nos ritos, na “rotina”, no trato, nos olhares fixos com qual nos encaram ou encaram a objetiva da câmera sem pudor algum. Aliás, um olhar carregado de uma força que não se explica. A nossa incumbência, nessa viagem, era levar os aparatos técnicos de registro e comunicação interna. Sem muita cerimônia, eles se entrosaram com aquela parafernália de máquinas e gravadores digitais e computadores e aparelhagens. E, de repente, surgiam filmando os rituais de cantorias, as corridas de toras, fotografando mulheres, crianças, numa atitude muito comovente, mas que contraria o nosso desejo velado de que eles não se contaminem com a nossa mentalidade. Preocupação compreensível, porém, tardia e talvez até desnecessária, porque o processo corrosivo de dominação que se iniciou com a invasão dessa terra e foi se disseminando Brasil afora é irreversível. O pouco que se pode resguardar e manter vivo, já parece muito.
ps: foto provisória....aguardem as outras


2 comentários:
Peraí, o que há tão ruim com a nossa mentalidade? O branco nem sempre pensa só em dinheiro. Sei que são raras as exceções. Mas essa atitude pode ser uma. Porque não seria digna de mençao a promoção da inclusão tecnológica entre os krahô?
Aliás, eles nos descobriram, nos os descobrimos. É inevitável que haja alguma interação. O que podemos evitar é que ela não biunívoca.
também acho que o homem não pensa só em $. ainda bem. o que me impressiona é justamente essa descoberta mútua e esse limite tênue entre interação e imposição.
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