Quando eu pensei esse buraco negro, eu prometi recontar algumas histórias provindas da cozinha de minha casa em Minas. Aquele espaço miudinho, cercado dos azulejos quadriculados e do cheiro temperado da comida. Como que num ritual sagrado, lá ninguém come sozinho, não se pode discutir na mesa e há sempre um tempo de conversa fiada enquanto descascam-se as laranjas. Ali pudemos ouvir as histórias mais cabulosas, os desabafos mais sinceros e as visitas mais inusitadas.
Meu pai gostava sempre de contar a famosa história do terço. O caso deu-se com minha avó, uma senhora baixinha, negra, afetuosa e que tinha no rosto as expressões mais fidedignas de alguém que sofreu um bocado na vida. Quando esta se mudou para a cidade, televisão era uma das mais recentes invenções. Ali residia o universo ainda muito desconhecido que fascinava os telespectadores. No ar, a memorável novela “O Pantanal” da Rede Manchete de Televisão. Aquela novela da Juma Maruá, a mulher que vira onça e por aí vai.
Ocorre então, que numa sexta-feira, vizinhos e parentes reuniram-se na casa da vó para a reza do terço. As imagens no banco de madeira, as rosas no copinho de água, os terços de contas azuis e as rezadeiras em torno do altar. Partimos para as intenções. Viagem, ponte de safena, emprego, gravidez e aquele mundaréu de coisa. Eis que no fim, minha vó declara a preocupação que a atormentava, digna de ser lembrada nas intenções: Pelas famia lá do Pantanal, gente. Pra ês pará com essas matança, essas brigaiada, Deus podia iluminar o coração deles....
Ah, não teve respeito que resistisse à ingenuidade de Dona Maria. Todo mundo danou-se a rir e tentar explicar que aquilo lá que ela via, as mortes, as brigas, a história eram mentira, encenações, trem inventado.
Ela não se conformou. Rezou o terço contrariada, pensando: “Ara, gente, quem havia de brincar com essas coisa”.

Um comentário:
Se todo mundo tivesse um pouquinho da bondade da sua avózinha...
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