terça-feira, março 21, 2006

“A nós descei divina luz......"

Quando eu pensei esse buraco negro, eu prometi recontar algumas histórias provindas da cozinha de minha casa em Minas. Aquele espaço miudinho, cercado dos azulejos quadriculados e do cheiro temperado da comida. Como que num ritual sagrado, lá ninguém come sozinho, não se pode discutir na mesa e há sempre um tempo de conversa fiada enquanto descascam-se as laranjas. Ali pudemos ouvir as histórias mais cabulosas, os desabafos mais sinceros e as visitas mais inusitadas.

Meu pai gostava sempre de contar a famosa história do terço. O caso deu-se com minha avó, uma senhora baixinha, negra, afetuosa e que tinha no rosto as expressões mais fidedignas de alguém que sofreu um bocado na vida. Quando esta se mudou para a cidade, televisão era uma das mais recentes invenções. Ali residia o universo ainda muito desconhecido que fascinava os telespectadores. No ar, a memorável novela “O Pantanal” da Rede Manchete de Televisão. Aquela novela da Juma Maruá, a mulher que vira onça e por aí vai.

Ocorre então, que numa sexta-feira, vizinhos e parentes reuniram-se na casa da vó para a reza do terço. As imagens no banco de madeira, as rosas no copinho de água, os terços de contas azuis e as rezadeiras em torno do altar. Partimos para as intenções. Viagem, ponte de safena, emprego, gravidez e aquele mundaréu de coisa. Eis que no fim, minha vó declara a preocupação que a atormentava, digna de ser lembrada nas intenções: Pelas famia lá do Pantanal, gente. Pra ês pará com essas matança, essas brigaiada, Deus podia iluminar o coração deles....

Ah, não teve respeito que resistisse à ingenuidade de Dona Maria. Todo mundo danou-se a rir e tentar explicar que aquilo lá que ela via, as mortes, as brigas, a história eram mentira, encenações, trem inventado.

Ela não se conformou. Rezou o terço contrariada, pensando: “Ara, gente, quem havia de brincar com essas coisa”.

Um comentário:

Andrea disse...

Se todo mundo tivesse um pouquinho da bondade da sua avózinha...